Sobre a Exortação Apostólica DILEXI TE do Papa Leão XIV:
Rutura com a economia que mata
No dia 4 de outubro de 2025 foi publicado, no primeiro ano de pontificado do novo Papa, o documento intitulado Dilexi Te.

Edgar Silva foi padre e é investigador no Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa e dirigente do PCP.
Iniciada pelo seu antecessor, Papa Francisco, nos últimos meses de sua vida, Dilexi Te (DT) foi assumida como herança pelo Papa Leão XIV. Ao assumir este texto como sua primeira Exortação Apostólica, Leão XIV manifesta o sentido de continuidade em relação ao legado de Francisco: «Ao receber como herança este projeto, sinto-me feliz ao assumi-lo como meu – acrescentando algumas reflexões – e ao apresentá-lo no início do meu pontificado, partilhando o desejo do meu amado Predecessor de que todos os cristãos possam perceber a forte ligação existente entre o amor de Cristo e o seu chamamento a tornarmo-nos próximos dos pobres» (DT 3).
Deste documento destacaremos eixos fundamentais que apontam para um compromisso com os explorados e oprimidos, «uma decidida e radical posição em favor dos mais fracos» (DT 16).
1. O império do dinheiro
«A carne sofredora dos pobres», «aqueles que são discriminados e oprimidos», esse grito ignorado pela sociedade, o clamor do «rosto ferido dos pobres» ecoa com veemência neste documento de Leão XIV.
O Papa Leão denuncia as «múltiplas formas de empobrecimento económico e social», o paradoxo dos abismos sociais e do crescimento de «algumas elites ricas, que vivem numa bolha de condições demasiado confortáveis e luxuosas, quase num mundo à parte em relação às pessoas comuns». As sociedades estão marcadas por «numerosas desigualdades», pelo surgimento de novas formas de pobreza «mais subtis e perigosas» e por regras econômicas que aumentaram a riqueza nalgumas sociedades, «mas sem equidade».
Vivemos num tempo em que se multiplicam diferentes faces da pobreza, onde se agravam «múltiplas formas de empobrecimento económico e social». E o Papa analisa os diversos “rostos” da pobreza que caracterizam o nosso tempo: a pobreza daqueles que «não têm meios de subsistência material», de «quem é marginalizado socialmente e não possui instrumentos para dar voz à sua dignidade e suas capacidades»; a pobreza “moral”, “espiritual”, “cultural”; a pobreza «de quem não tem direitos, nem lugar, nem liberdade» (DT 9).
O documento dá voz ao problema das migrações. Robert Prevost toma para si os famosos “quatro verbos” do Papa Francisco: acolher, proteger, promover e integrar – sem esquecer as mulheres entre as primeiras vítimas de violência e exclusão.
Leão XIV dedica um amplo espaço ao clamor dos migrantes. Para ilustrar as suas palavras, ele usa a imagem do pequeno Alan Kurdi, o menino sírio de 3 anos que se tornou, em 2015, símbolo da crise europeia dos migrantes com a foto de seu corpo abandonado sem vida numa praia. «Infelizmente, à parte de alguma momentânea comoção, acontecimentos semelhantes estão a tornar-se cada vez mais irrelevantes, como notícias secundárias» (DT 11), denuncia o Pontífice.
Em face da persistência das desigualdades sociais e do surgimento de novas expressões da pobreza, «precisamos de reconhecer a tentação que nos cerca de se desinteressar dos outros, especialmente dos mais frágeis». (DT nº 105). Apesar das clamorosas injustiças «a cultura dominante do início deste milénio impele-nos a abandonar os pobres ao seu próprio destino, a não os considerar dignos de atenção e muito menos de apreço» (DT 105).
E vai mais longe a crítica feita pelo Papa Leão. Aponta como intolerável a “cultura da indiferença”. Persiste – «por vezes bem disfarçada» – uma cultura do descarte que «tolera com indiferença que milhões de pessoas morram de fome ou sobrevivam em condições indignas do ser humano» (DT 11).
Soma-se à “cultura da indiferença” a força dos “preconceitos ideológicos”, amplamente difundidos, que tentam «convencer que a situação dos pobres não é tão grave assim», assim como conduzem a erradas perceções acerca dos pobres, provocando «injustas generalizações e a conclusões enganadoras».
Segundo Leão XIV, não podemos pactuar com uma sociedade que «procura construir-se de costas para o sofrimento»! (DT 107).
2. Causas da pobreza
O Papa Leão XIV traça uma reflexão profunda sobre as causas da pobreza: «Os pobres não existem por acaso ou por um cego e amargo destino. Muito menos a pobreza é uma escolha, para a maioria deles. No entanto, ainda há quem ouse afirmá-lo, demonstrando cegueira e crueldade» (DT 14).
E diz ainda neste mesmo ponto do texto que «entre os pobres há também aqueles que não querem trabalhar», mas há também muitos homens e mulheres que, por exemplo, recolhem papelão de manhã à noite apenas para “sobreviver” e nunca para “melhorar” a vida.
Em suma, lê-se num dos pontos centrais da Dilexi Te, não se pode dizer «que a maioria dos pobres estão nessa situação porque não obtiveram méritos, de acordo com a falsa visão da meritocracia, segundo a qual parece que só têm méritos aqueles que tiveram sucesso na vida» (DT 14).
O Papa alerta para a facto de que não basta o aumento da riqueza, dos indicadores favoráveis do PIB para que exista redução da pobreza numa sociedade. «Há regras económicas que foram eficazes para o crescimento, mas não de igual modo para o desenvolvimento humano integral. Aumentou a riqueza, mas sem equidade, e assim nascem novas pobrezas» (DT 13).
Essa é a economia que mata, que assenta nas estruturas da injustiça.
Os pobres e a pobreza são indissociáveis dessas estruturas da injustiça, de «ideias sociais e sistemas político-económicos injustos, favoráveis aos mais fortes» (DT 11), que favorecem a acumulação de riquezas à custa da exploração, que fazem os lucros de poucos crescerem exponencialmente (DT 92).
Os pobres e a pobreza são inseparáveis da “economia que mata”. Entre os pobres e a pobreza existe um nexo direto com a “ditadura de uma economia que mata”. «Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras» (DT 92).
Sem que sejam alterados aqueles mecanismos económicos, a pobreza e a exclusão social continuarão a ser uma realidade; sem tocar as regras econômicas que aumentam a riqueza, “mas sem equidade”, persistirão as gritantes desigualdades e injustiças sociais: «A falta de equidade é a raiz dos males sociais» (DT 94).
É, por isso, imperiosa uma rutura com a «economia que mata».
Em contraposição, o Papa relança o dever da “opção preferencial pelos mais pobres”: a questão dos pobres remete-nos à essência da nossa fé» (DT 110), recoloca a tarefa cristã de ser «solidário com os pobres, excluídos e marginalizados, com todos aqueles que são considerados “descartáveis” pela sociedade» (DT 111).
3. Compromisso
A situação dos pobres coloca um grito que se dirige constantemente aos não pobres, «interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos».
O Papa convoca a sociedade a se posicionar publicamente diante da persistência dos fenómenos da pobreza e da exclusão social e em face dos seus novos contornos: «Devemos empenhar-nos cada vez mais em resolver as causas estruturais da pobreza. É uma urgência que não pode esperar» (DT 94).
Leão XIV saúda “com satisfação” o fato de que «as Nações Unidas tenham colocado a erradicação da pobreza como um dos objetivos do Milênio». No entanto, lembra que o caminho é longo, especialmente numa época em que continua a vigorar a «ditadura de uma economia que mata», em que uns, poucos, acumulam grande riqueza, enquanto os da maioria estão “cada vez mais longe do bem-estar” e em que se difundem «ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira» (DT 92).
Diante destas realidades do mundo de hoje, o Papa considera “insuficiente” o compromisso para eliminar as causas estruturais da pobreza e lamenta que, apesar dos esforços internacionais, como os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, da Organização das Nações Unidas, a erradicação da pobreza ainda esteja longe de ser alcançada.
Em relação ao crescimento da pobreza e das desigualdades sociais, fala de «legítima luta pela justiça» e coloca o dever de denunciar e de intervir nas estruturas de injustiça: «As estruturas de injustiça devem ser reconhecidas e destruídas».
Nesse sentido, a Igreja Católica valoriza a intervenção política e a importância de que no plano institucional «cresça o número de políticos capazes de entrar num autêntico diálogo que vise efetivamente sanar as raízes profundas e não a aparência dos males do nosso mundo» (DT 91).
Sobre esse «empenho em mudar as estruturas sociais injustas» (DT 121), no que exige de transformação estrutural e pessoal, o Papa diz que tais processos se deverão efetivar «através da mudança de mentalidades e também, com a ajuda da ciência e da técnica, através do desenvolvimento de políticas eficazes na transformação da sociedade».
Esse apelo ao compromisso com a causa do pobre e ao compromisso com a justiça é “um permanente desafio”. Porém, continuar a manter o atual sistema dominante, nas palavras do Papa, conduzirá a humanidade a perder a dignidade moral e espiritual. Continuar a legitimar, de forma explícita ou dissimulada, o modelo distributivo atual levará a que «caímos numa espécie de poço de imundície» (DT 95). Da resposta das sociedades ao clamor dos pobres ficará dependente o valor das nossas sociedades e dela também depende o nosso futuro.
12/01/2026
A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de reflexão vinculam apenas quem os assina.
