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Portugal Democrático: os católicos na luta contra a ditadura de Salazar e Caetano

A história da resistência à ditadura de Salazar e Caetano não pode ser compreendida apenas através da militância comunista, socialista ou republicana.

Portugal Democrático: os católicos na luta contra a ditadura de Salazar e Caetano

Edgar Silva foi padre e é investigador no Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa e dirigente do PCP.

Houve também uma oposição católica que, progressivamente, assumiu um papel político relevante na luta pela liberdade, pela democracia, pela paz e contra a guerra colonial. Uma dimensão particularmente importante dessa história encontra-se nas páginas do jornal Portugal Democrático, publicado no Brasil entre 1956 e 1975.

Uma das conclusões mais significativas da investigação sobre este periódico é precisamente a centralidade que atribuiu aos católicos e à Igreja Católica enquanto protagonistas da oposição ao fascismo. O levantamento sistemático das suas edições permitiu identificar 877 peças relacionadas com os católicos, o cristianismo e a Igreja Católica. Desde o primeiro número do jornal foram sistematicamente publicadas notícias, artigos, denúncias, cartas, documentos, declarações e apelos de sectores católicos na luta contra a ditadura instaurada em Portugal. Não estamos, portanto, perante referências ocasionais, mas perante uma linha editorial persistente, presente desde o primeiro número, em julho de 1956, até à última edição, em abril de 1975.

Esta opção editorial tinha um significado político profundo. O salazarismo procurava legitimar-se através de uma imagem de defensor da ordem, da família e da moral cristã, beneficiando da proximidade de importantes sectores da hierarquia eclesiástica. O Portugal Democrático confrontou essa representação com uma realidade que o regime procurava ocultar, a existência de padres, leigos e movimentos católicos que denunciavam a repressão, a tortura, a pobreza, a censura e a guerra colonial.

Ao divulgar documentos e identificar os protagonistas destas denúncias, o jornal demonstrava que a Igreja Católica não constituía um bloco homogéneo de apoio à ditadura. Pelo contrário, nela se desenvolviam tensões e divergências entre sectores conservadores, próximos do poder, e correntes cristãs comprometidas com a transformação social e política. O caso do padre José da Felicidade Alves, cuja confrontação com a hierarquia eclesiástica e com a ditadura ganhou expressão pública no final da década de 1960, é particularmente revelador.

Mais do que noticiar acontecimentos, o jornal construía uma memória pública da resistência católica. Fazia circular, além-fronteiras, as posições de padres e grupos cristãos, dando visibilidade a quem, em Portugal, enfrentava a repressão e o silenciamento. Esta intervenção assumia também uma dimensão internacional, especialmente através das ligações estabelecidas no Brasil.

Importa ainda sublinhar que o Portugal Democrático valorizou a convergência entre católicos progressistas e militantes comunistas. A defesa da amnistia dos presos políticos, da paz, da justiça social, da descolonização e das liberdades democráticas constituiu um terreno de aproximação e de unidade na ação. Esta frente de convergência não significava o desaparecimento das diferenças ideológicas ou religiosas, mas a compreensão de que a derrota da ditadura exigia a cooperação entre diferentes protagonistas políticos e culturais.

A relevância desta orientação ultrapassa, por isso, a história de um jornal de exilados. O Portugal Democrático foi também um espaço de construção de uma frente ampla de oposição, reconhecendo nos católicos empenhados na democracia uma força indispensável à transformação da sociedade portuguesa.
Recuperar esta dimensão da sua intervenção é reconhecer que a resistência à ditadura de Salazar e Caetano foi também protagonizada por cristãos que encontraram na sua própria consciência ética razões para contestar o regime.

Portanto, os católicos oposicionistas não foram meros aliados ocasionais da resistência, foram reconhecidos pelo Portugal Democrático como sujeitos políticos ativos na construção da unidade antifascista e na preparação das condições históricas que conduziram ao 25 de Abril.

6/11/2026

A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de reflexão vinculam apenas quem os assina.

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