Nuno Bragança– Um católico guerrilheiro
Na continuação do ciclo dedicado às comemorações dos 50º Aniversário do 25 de Abril, o Terra da Fraternidade, continua a divulgar micro- biografias de algumas dos católicos com um papel de destaque no combate ao fascismo e conquista da democracia.
Todas as micro-biografias são extraídas da tese de Doutoramento de Edgar Silva: "Vendaval de utopias. Do catolicismo social ao compromisso político em Portugal (1965-1976). Os católicos da Revolução e o PCP."

No Portugal salazarista dos anos sessenta, o romance Direta (1977) é, de acordo com o autor, o escritor Nuno Bragança, «a história de alguém que vive numa perspetiva cristã a luta revolucionária».
Nuno Bragança era guiado por “dois horizontes mobilizadores” ou “duas orientações” que caracterizavam tanto a sua luta política quanto o seu viver: o cristianismo e o marxismo (1) . Ambos, segundo Loureiro, servem de “bússolas” na vida do autor e de algumas de suas personagens, como o Aníbal de Direta.
Na vida de Nuno Bragança não se colocava qualquer dicotomia entre a sua identidade cristã e a sua filosofia marxista, do mesmo modo que Aníbal vivia “numa perspetiva cristã a luta revolucionária”.
Aliás, é o próprio Nuno Bragança quem referiu, em entrevista à RTP, esse paralelismo entre Cristo e o cristão comprometido com a transformação do mundo através do seu agir consequente: «Direta é a história de alguém que vive numa perspetiva cristã a luta revolucionária. A vigília de Cristo, que se passa de noite, antes da crucifixão, é para o cristão qualquer coisa que tem a ver com o esforço para mudar o mundo tal como ele se encontra. Daí a direta que é referida no antepenúltimo capítulo: “Cristo estará em direta até ao final dos tempos”» (2).
Nuno Bragança, compreendia as exigências da sua militância política e a sua conceção revolucionária da história aliada a uma profunda espiritualidade cristã. A sua leitura dos acontecimentos decorria da aprendizagem de uma mística do agir, da incontornável ação transfiguradora da vida (3). Em depoimento que consta do documentário U OMÃI QE DAVA PULUS, de João Pinto Nogueira, Pedro Tamen afirma que do grupo dos “católicos progressistas” Nuno Bragança «era o mais empenhado e o mais militante [...] e ao mesmo tempo [...] era o mais místico. O que provavelmente sempre foi à missa todos os dias, comunhão diária, e articulava isso perfeitamente com uma atenção ao secular, ao mundo, ao social, ao político, de uma maneira muito mais crua, talvez, lúcida, do que todos os outros» (4).
Nuno Bragança nasceu em Lisboa a 12 de fevereiro de 1929 numa família profundamente católica. Falecido a 7 de fevereiro de 1985 em Lisboa. Frequentou o curso de Agronomia, mudando depois para Direito, que completou em 1957. Em 1955 casou-se com a sua prima Maria Leonor Fonseca de Matos e Goes Caupers.
Nuno Bragança integrou a equipa do jornal Encontro, da Juventude Universitária Católica (JUC), onde publicou os seus primeiros textos literários. Foi cofundador – junto de Tamen, João Bénard da Costa e António Alçada Baptista – da revista O Tempo e o Modo, onde publicou diversos textos ao longo da chamada 1ª fase, entre 1963 e 1969.
A partir de 1968 fixou-se em Paris e publicou o seu primeiro romance A Noite e o Riso (1969). Naquele ano radicalizaria a sua intervenção política através do seu envolvimento nas Brigadas Revolucionárias, na sequência da anterior ligação que teve ao Movimento de Acão Revolucionária (MAR).
Bragança regressou a Portugal em finais de 1972.
Na linha narrativa e temática de Direta, Nuno Bragança escreveu um outro romance, Square Tolstoi. Também é da sua autoria a coletânea de contos Estação e, postumamente, foi editada uma sua novela inacabada O Fim do Mundo. Foi argumentista de Os Verdes Anos, um dos filmes inaugurais do Cinema Novo Português e corealizador, a par de Gérard Castello-Lopes, do filme Nacionalidade: Português.
No romance Square Tolstoi, num registo também muito autobiográfico, Nuno Bragança relatou o seu envolvimento nas Brigadas Revolucionárias e as primeiras ações bombistas.
Um ponto chave em Nuno Bragança é que o compromisso revolucionário não surge apesar do cristianismo, mas a partir dele. Em Square Tolstoi, a ética cristã, fundamentada nos valores da justiça, responsabilidade, atenção aos oprimidos, recusa da indiferença, é reinterpretada como exigência de ação na história concreta.
Uma ideia poderosa em Square Tolstoi é a noção de responsabilidade moral do intelectual. O narrador sente que compreender a injustiça e não agir equivale a cumplicidade. Daí resulta uma recusa da neutralidade, a ideia de que a ação — mesmo violenta — pode ser eticamente exigida pelas circunstâncias. Por isso, a luta armada não é apresentada como entusiasmo bélico, mas como peso moral assumido conscientemente.
O texto inscreve-se num horizonte internacional marcado pelos movimentos revolucionários das décadas de 1960 e 1970. As lutas de libertação nacional e as guerrilhas anticapitalistas (Vietname, movimentos de libertação africanos, guerrilhas latino-americanas) são apresentadas como referências legitimadoras da violência revolucionária, entendida como resposta à violência estrutural exercida pelos sistemas imperialistas e capitalistas. Esses exemplos reforçam a crença de que a violência revolucionária pode ser legítima quando enfrenta violência estrutural, colonial ou capitalista. Neste sentido, Portugal é visto como parte desse mesmo sistema global de opressão contra o qual Nuno Bragança, enquanto católico, justifica a insurreição.
O narrador sugere que o conhecimento das injustiças sociais impõe uma obrigação ética de agir, rejeitando a neutralidade como forma de cumplicidade. O compromisso com a luta armada emerge, para Nuno Bragança, como resultado de uma ética da responsabilidade histórica, na qual a ação se sobrepõe à mera reflexão crítica.
Talvez o aspeto mais original de Nuno Bragança seja o compromisso com a luta armada entendido como uma escolha existencial, quase sartriana. Agir é afirmar sentido, arriscar a vida é dar densidade moral à existência, é procura de coerência entre pensamento e ação, tornada imperativa. A luta armada é, portanto, menos um fim em si mesma do que uma forma radical de não viver em contradição.
Square Tolstoi não romantiza ingenuamente as primeiras ações bombistas. Expõe o peso da culpa, da dúvida e da solidão. Há no texto dilema ético, conflito moral, drama existencial, consciência do custo humano e simbólico da violência. A luta armada aparece como escolha trágica, não como aventura heroica.
A trajetória de Nuno Bragança enquanto cristão e marxista, como católico e guerrilheiro, que conheceu uma densificação testemunhal tão significativa nos romances Direta e Square Tolstoi, aproximam-se dos itinerários de outros percursos pessoais, quer nas motivações, quer nos enquadramentos ético-políticos, construídos na sociedade portuguesa antes da revolução de 25 de Abril de 1974.
23/02/2026
________________
(1). Cf. LOUREIRO, La Salette - Cristianismo e Marxismo em Estação, de Nuno Bragança. Abril – Revista do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana da UFF, v. 7, nº 14, 2015, p. 129-145.
(2). Arquivos RTP - Conversa com Nuno Bragança. Entrevista a Álvaro Manuel Machado. In Programa A
Ideia e a Imagem. 09/02/78.
(3). BRAGANÇA, Nuno - A vida na história. Seara Nova nº 1589, março de 1978, p. 36 e 37.
(4). NOGUEIRA, João Pinto, Dir. - U OMÃI QE DAVA PULUS. Midas Filmes. Portugal, 2008, 75’.
