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A Conferência de Álvaro Cunhal na Universidade Católica

Em abril de 1995, Álvaro Cunhal deslocou-se ao Brasil a convite do Centro Cultural 25 de Abril, sediado em São Paulo, para assinalar o 21.º aniversário da Revolução dos Cravos, contando com o apoio de numerosos intelectuais brasileiros e portugueses residentes no Brasil.

A Conferência de Álvaro Cunhal na Universidade Católica

Edgar Silva foi padre e é investigador no Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa e dirigente do PCP.

Durante essa visita realizou várias conferências em São Paulo e Brasília, participou em eventos com intelectuais, dirigentes políticos, sindicalistas e estudantes, bem como em encontros com partidos políticos, órgãos de comunicação social e instituições brasileiras.

Em São Paulo, Cunhal proferiu duas conferências: a primeira, a 20 de abril, na Universidade de São Paulo (USP), intitulada "A Revolução dos Cravos: Abril de 1974-novembro de 1975"; a segunda, no dia 28 de abril, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), subordinada ao tema "Portugal no século XXI: ditadura e liberdade" (1).

Na USP, Cunhal falou, sobretudo, como dirigente político e protagonista da história portuguesa. A USP é uma universidade pública, marcada por uma forte tradição de investigação em História, Ciências Sociais e Ciência Política. Nesse contexto, aquele discurso privilegiou a interpretação da Revolução de Abril; a sucessão dos acontecimentos de 1974-1975; a polémica com as interpretações revisionistas; a indicação do papel histórico do PCP. É um discurso muito orientado para responder à pergunta: o que aconteceu realmente em Portugal? O centro da exposição é a Revolução enquanto processo histórico.

O núcleo da conferência na USP é a Revolução de Abril, a queda da ditadura, a mobilização popular, as conquistas sociais e a contestação das interpretações que procuravam reduzir 1974-1975 a uma simples transição institucional. É um discurso de defesa da memória histórica e da leitura comunista da Revolução Portuguesa.

Na PUC-SP, porém, a perspetiva desloca-se. Na PUC-SP, Cunhal encontrou um auditório onde os conceitos de liberdade, participação, justiça social e dignidade humana podiam funcionar como uma linguagem comum entre o pensamento comunista e o humanismo cristão latino-americano.

Naquela universidade Cunhal procura responder a uma questão exigente: afinal, o que significa e implica viver em liberdade? Abril permanece como referência fundamental, mas transforma-se no ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre a liberdade, a democracia e os direitos dos cidadãos. Cunhal escolhe uma linguagem capaz de criar pontes. Fala mais da liberdade conquistada, da democracia efetiva, dos direitos dos cidadãos e da participação popular. A distinção entre liberdade formal e liberdade efetiva, bem como a ideia de que a democracia integra, inseparavelmente, as suas dimensões política, económica, social e cultural, assumem um lugar central.

Esta diferença ganha particular significado quando se considera a identidade da própria PUC-SP. Durante a ditadura militar brasileira, aquela universidade afirmou-se como um dos espaços de resistência democrática da América Latina, reunindo marxistas, juristas, cientistas sociais, cristãos progressistas e protagonistas da Teologia da Libertação. Nesse ambiente, conceitos como liberdade, justiça social, participação democrática e dignidade humana constituíam uma linguagem partilhada por tradições políticas distintas. Certamente, por isso, o discurso apresenta características que o tornam particularmente apto ao diálogo com aquele meio intelectual e universitário.

Poderá não ser possível afirmar de forma objetiva que Cunhal tenha concebido deliberadamente a sua intervenção para dialogar com esse universo. Contudo, a análise do discurso permite formular uma hipótese consistente: a conferência da PUC-SP apresenta características que favoreciam esse diálogo, privilegiando categorias universais sem abandonar a matriz marxista que estruturava o seu pensamento. Insere-a numa linguagem de vocação universal, onde cristãos comprometidos com a transformação social podiam reconhecer um terreno comum.

Há, porém, um outro aspeto com relevante significado histórico. O simples facto de Álvaro Cunhal — durante décadas o rosto mais conhecido do comunismo português e dirigente de um partido que a ditadura de Salazar e Caetano procurou apresentar como o principal inimigo da civilização cristã — ter sido convidado a proferir uma conferência na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo constitui, por si só, um acontecimento de grande densidade simbólica.

Esse convite dificilmente pode ser entendido como um gesto meramente protocolar. A PUC-SP não era uma universidade católica qualquer. Sob a liderança de Dom Paulo Evaristo Arns, afirmara-se como um dos mais importantes espaços de resistência democrática à ditadura militar brasileira, acolhendo intelectuais perseguidos, promovendo o debate plural e favorecendo o encontro entre diferentes correntes do pensamento crítico.

Neste contexto, o convite dirigido a Cunhal adquire um significado que ultrapassa o conteúdo da própria conferência. Traduz o reconhecimento de que a luta contra as ditaduras, a defesa dos direitos humanos, da liberdade e da justiça social haviam criado espaços de convergência entre tradições políticas e culturais que, durante muito tempo, tinham sido apresentadas como inconciliáveis. A presença do histórico dirigente comunista numa universidade católica revelava a possibilidade de um diálogo fundado em objetivos comuns de emancipação humana.

Vista desta perspetiva, a conferência da PUC-SP representa um momento particularmente expressivo da história das relações luso-brasileiras e da circulação transatlântica de ideias democráticas. Mais do que um isolado episódio académico, simboliza o encontro entre experiências de resistência às ditaduras e diferentes culturas políticas que, preservando as suas trajetórias próprias, encontraram na defesa da liberdade, da democracia e da dignidade humana um terreno comum de confluência.

A conferência de Cunhal na PUC-SP pode ser entendida como um momento expressivo do encontro entre duas tradições emancipatórias que marcaram o espaço luso-brasileiro na segunda metade do século XX: por um lado, os fundamentos político-ideológicos do PCP; por outro, o humanismo cristão inspirado pelo Concílio Vaticano II, por Medellín e pela Teologia da Libertação.

Portanto, quer pela sua vertente simbólica, quer na sua expressão material, a conferência de Cunhal na PUC-SP constitui uma etapa da história da relação entre marxismo e cristianismo que, desde os anos 1960, dialogaram e convergiram em diferentes geografias e também no exílio português no Brasil. Aquela conferência corresponde a um momento particularmente expressivo do encontro entre o marxismo e o cristianismo, que encontrou na PUC-SP um dos seus principais centros de elaboração intelectual.

21/07/2026

A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de reflexão vinculam apenas quem os assina.

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(1) Cf. CUNHAL, Álvaro – Fracasso e Derrota do Governo de Direita do PSD/Cavaco Silva – IV. Lisboa: Editorial «Avante!» SA, 2016, pp. 1515 – 1537.

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