As reformas em Portugal são sagradas
O título desta minha crónica, "As reformas em Portugal são sagradas", reproduz "ipsis verbis" a afirmação do Senhor Presidente da República comentando a indisfarçada intenção governativa de proceder a profundas alterações no nosso sistema de pensões.

Artur Ribeiro é comerciante e foi Vereador da CDU na Câmara Municipal de Matosinhos.
Na verdade, pode o governo tentar tapar o sol com a peneira, para escapar ao volume de protestos que se levantam de múltiplos quadrantes, mas, no fundo, o objectivo é evidente: dramatizar a situação financeira do sistema de Segurança Social, amedrontar a opinião pública, amortizar o protesto levando os cidadãos a aceitar sem contestação a entrega do sistema ao setor privado.
Para a concretização desta estratégia, o governo contratou os mesmos protagonistas que, no tempo da troika de Passos Coelho, apresentaram um estudo que apontava no mesmo sentido. Um estudo assente em dados falaciosos. Um estudo que junta o sistema previdencial (onde o trabalhador desconta 11% e as empresas 23,5%, seguindo assim 34,5% do salário para financiar as pensões), o regime da Caixa Geral de Aposentações (onde o trabalhador desconta 10% e o Estado não contribui) e o Sistema de Protecção Social de Cidadania (não contributivo). Um estudo que junta, como se vê, componentes com características muito díspares.
É absolutamente indispensável salvaguardar na esfera pública, e apenas aí, o nosso sistema público de Segurança Social, cujo saldo global no final de Dezembro era de cerca de sete mil milhões de euros, mais de mil milhões euros relativamente ao período homólogo. E são justamente estes fundos que o governo dá sinais de querer entregar aos Bancos e Seguradoras, comprometendo o nosso futuro colectivo na especulação, mercado de capitais.
Recordo aqui uma citação do Papa Francisco:- "Uma sociedade que não cuida dos seus idosos, que não lhes garante o direito a uma vida digna e a uma reforma justa, é uma sociedade sem futuro. Os idosos não são um peso, são as raízes e a memória de um povo".
Como aqui escrevi na minha última crónica, vencemos, para já, o Pacote Laboral. Mas temos que estar preparados para muitas outras novas lutas. Em Democracia, e face a governos que não cuidam dos interesses dos trabalhadores, que atentam contra eles, é imperativo lutar. Nada está garantido. Tudo tem de ser defendido. Tudo tem de ser conquistado.
Confio, como sempre, nos trabalhadores, no Povo. Confio que o Senhor Presidente da República honrará a sua palavra.
Também desta vez: não passarão!
11/09/2026
A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de reflexão vinculam apenas quem os assina.
