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JMJ 2023: da logística ao potencial

A realização da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) 2023 em Lisboa é a 15.ª edição de uma iniciativa criada em 1985 pelo Papa João Paulo II para ser uma ocasião fundamental de afirmação e de mobilização da Igreja Católica. A última decorreu no Panamá.

JMJ 2023: da logística ao potencial

Imagem: Vatican News

Equipa "Terra da Fraternidade":

Sérgio Dias Branco é professor da Universidade de Coimbra, dirigente da CGTP-IN, e leigo da Ordem Dominicana da Igreja Católica.

Deolinda Carvalho Machado é professora, dirigente associativa e da LOC-MTC.

Joaquim Mesquita é operário fabril do sector alimentação, dirigente da CGTP-IN, e militante da Base-FUT e da LOC-MTC.

A realização, preparação e organização da JMJ não é um simples momento, mas sim um intenso processo de anos e meses de preparação, planeamento, e organização que envolve a Igreja Católica e diferentes entidades locais, públicas e privadas.

Para o trabalho conjunto com entidades públicas necessitou da assinatura de um Memorando de Entendimento assinado pelo Governo, a Câmara Municipal de Lisboa, a Câmara Municipal de Loures, a Câmara Municipal de Oeiras, e Igreja Católica, identificando as responsabilidades e os contributos financeiros de cada um. Foram também muitas as parcerias, os patrocínios e os protocolos com entidades públicas e privadas, para garantir as mais diversas necessidades dos peregrinos que participaram na JMJ.

As diferentes entidades subscritoras do Memorando definiram estruturas para concretizar o acordado. A Igreja Católica instituiu o Comité Organizador Local (COL) e a Fundação JMJ Lisboa 2023 como órgão operacional, participando em ambas o bispo auxiliar coordenador e o secretário executivo. O Governo responsabilizou uma ministra e definiu um Grupo de Projecto, dirigido por um antigo vereador de Lisboa. A Câmara Municipal de Lisboa instituiu uma Unidade de Projecto, com a participação do presidente da Associação de Promotores de Festivais em Portugal, pessoa que bastante valorizou o polémico altar-palco no Parque Tejo, entretanto alterado, inicialmente orçado em quase cinco milhões de euros. As restantes entidades responsabilizaram igualmente quadros locais.

No caso da Igreja Católica foram ainda instituídos Comités Organizadores Diocesanos (COD), Vicariais e Paroquiais, visando assegurar dormidas, famílias de acolhimento, iniciativas locais, questões financeiras, inscrições, dinamização pastoral, logística, relações institucionais, comunicação, segurança, entre outras tarefas e envolvendo centenas de pessoas, com destaque para a centralidade do COD de Lisboa.

A Fundação JMJ, órgão operacional, merece um olhar particular. A sua Direcção Executiva é composta por nove pessoas, com idades entre os 25 e os 55 anos, licenciados e, vários oriundos do Movimento de Schoenstatt. Entre os seus membros estão quadros do Grupo Mello/CUF, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, do Grupo Longa Vida/Nestlé, e do Pingo Doce. Embora uma das pessoas tenha responsabilidades na Agência Nacional Erasmus+ Educação e Formação, no geral a composição da Direcção Executiva revela o forte empenho destas grandes empresas na JMJ, sendo que o Grupo Mello e o Pingo Doce estão entre o núcleo restrito dos cinco parceiros fundadores. Margarida Manaia, responsável de Recursos Humanos do Pingo Doce e membro da Direcção Executiva da Fundação JMJ disse que pensou em “pedir um ano sem vencimento”, mas no Grupo Jerónimo Martins foram “muito mais generosos” e “disseram-me que me ‘cediam’ à Jornada, mantendo as condições contratuais”. (1) Uma atitude bem diferente que estas empresas têm face a justos pedidos de aumentos de salários pela generalidade dos seus trabalhadores.

A realização da JMJ envolve um elevado volume de despesas que exigem clareza de procedimentos e vontade contrariar despesas megalómanas, como o altar-palco já referido, de que a Santa Sé e a Igreja Católica em Portugal logo se demarcaram, e mesmo a anulação de outras despesas, como a ponte militar que as Câmaras Municipais de Lisboa e de Loures vieram anular. Os valores anunciados publicamente são da ordem dos 162 milhões em despesas, cabendo respectivamente, 80 milhões de euros à Igreja Católica, 37 milhões de euros ao Estado, 35 milhões de euros à Câmara Municipal de Lisboa, 9 milhões de euros à Câmara Municipal de Loures e 1 milhão de euros à Câmara Municipal de Oeiras. A necessidade de maior acompanhamento sobre os valores gastos tem maior urgência, quando é conhecido que a Câmara de Loures assumiu dois empréstimos totalizando 15 milhões euros para a JMJ, depois de anunciar 9 milhões, e que serão realizadas outras despesas impostas pela dinâmica da JMJ imputadas a outras áreas. As pressões sobre outros municípios e juntas de freguesia da Área Metropolitana de Lisboa, assim como colectividades e outras entidades que colaboraram na organização da JMJ, com infraestruturas, instalações, e meios são evidentes.

As diferentes iniciativas que compõem a JMJ, terão no Parque Tejo em Lisboa e Loures, o principal local das celebrações, mas elas vão ter lugar em diferentes espaços de Lisboa, de Loures e de Oeiras. O que implicará a mobilização de milhares de voluntários para as diferentes tarefas, apontando-se cerca de 30 mil voluntários, embora noticias recentes indiquem dificuldades de recrutamento, faltando cerca de 10 mil voluntários e por isso ser falado num dito plano B, para assegurar as principais necessidades; enquanto o Governo já anunciou 10 mil policias da PSP, fala em mobilizar outros sectores e proibiu os profissionais das Forças de Segurança e da Saúde de tirarem férias ou gozarem folgas nesse período, gerando muitos e justos protestos. São aspetos que deveriam ter sido acautelados atempadamente, com o envolvimento destes profissionais.

A mobilidade e os transportes são aspectos centrais da realização da JMJ, estando a responsabilidade entregue ao Governo, cujo Plano de Mobilidade identificou os transportes públicos com o principal meio de deslocação, através da rentabilização máxima do Metro, excluindo o funcionamento durante a noite. A nível ferroviário, foram encerrados os apeadeiros de Sacavém e Bobadela, mais próximos do evento principal. O sistema de passes negociado com a Carris Metropolitana custará seis milhões euros, a suportar pelo Estado e pela Igreja Católica.

Estar e viver a JMJ é certamente aliciante, mas não é grátis. Os custos de participação, variam entre os 235€ para a semana completa e os 50€ para a noite de 5 para 6 de Agosto, quando decorrerá a Via Sacra, sendo a noite passada ao ar livre para recepção ao Papa. O anúncio dos valores de participação, suscitou críticas e obrigou mesmo o bispo auxiliar de Lisboa e coordenador da JMJ, D. Américo Aguiar, a assumir uma intervenção pública em defesa das opções encontradas. A opção mais cara inclui alojamento, alimentação, transporte, seguro e kit do peregrino desde a noite de 31 de julho até à manhã de 7 de agosto.

A divulgação e afirmação da JMJ 2023 são elementos estruturantes para o seu êxito e revelação do seu potencial. Ao longo dos últimos meses, com diferentes formatos, têm-se intensificado os esforços de promoção desta importante iniciativa da Igreja Católica, sempre convergindo na ideia de um acontecimento ímpar e marcante na vida dos jovens. Todo este processo de afirmação, divulgação, e promoção, parte de experiências anteriores e teve impulso nas Jornadas Nacionais de Comunicação Social, organizadas pela Conferência Episcopal Portuguesa com o tema “Comunicar a JMJ Lisboa”, mas que progrediu com a realização de visitas à Sede da Fundação JMJ por altos representantes do Estado Português e muitas outras personalidades e entidades nacionais e estrangeiras, públicas, privadas, associativas, sindicais. e empresariais. A abrangência destas visitas dá bem a dimensão social deste evento, que extravasa em muito o seu cunho religioso, com uma forte componente cultural, onde se incluem o hino, o Coro e a Orquestra da JMJ, mas não só.

O que se espera é que este gigante evento possa contribuir para a uma “alteração de mentalidades” (2), como escreveu frei Bento Domingues: da recuperação do nosso vínculo com o mundo natural, como o cronista aponta, à construção de um mundo mais justo e pacificado.

3/08/2023

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(1) Diocese Leiria-Fátima, “JMJ Lisboa 2023 no caminho para ser a JMJ mais sustentável de sempre”, caixa “Sabia que...”, https://www.leiria-fatima.pt/jmj-lisboa-2023-no-caminho-para-ser-a-jmj-mais-sustentavel-de-sempre .
(2) Frei Bento Domigues, OP, “O essencial é a sabedoria do amor”, Público, 30 Jul. 2023, https://www.publico.pt/2023/07/30/opiniao/opiniao/essencial-sabedoria-amor-2058420 .

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