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Quando a pobreza infantil deixa de incomodar

Há uma forma particularmente cruel de uma sociedade se defender da sua própria injustiça: transformar os pobres em culpados.

Quando a pobreza infantil deixa de incomodar

Alexandre Nuno Teixeira é Gestor de Programas no Setor Social (Migrações) e Dirigente Associativo Voluntário (Movimento Associativo Popular e IPSS).

E, quando isso já não chega, transforma-os em invisíveis. Fala-se deles como despesa, ameaça, abuso, peso, desordem ou incómodo. Raramente como crianças, famílias, trabalhadores precários, mães sozinhas, idosos isolados, migrantes, pessoas doentes ou comunidades que vivem há demasiado tempo sem margem para falhar.

O relatório Portugal, Balanço Social 2025 devia obrigar-nos a parar. Em 2024, a taxa de risco de pobreza infantil era de 17,8%. Entre as crianças pobres, a privação material e social era quase quatro vezes superior à das crianças não pobres: 29,6% contra 7,6%. Quase metade das crianças pobres não participava regularmente em atividades extracurriculares ou de lazer, e 15% dos agregados com crianças pobres não conseguiam assegurar uma alimentação saudável e nutritiva. Isto não é uma estatística fria. É infância condicionada à partida. É desigualdade a começar cedo demais.

Mas há aqui um ponto ainda mais incómodo: as crianças pobres raramente aparecem sozinhas na narrativa pública. Surgem associadas aos grupos que a retórica populista escolhe como alvo: famílias monoparentais, migrantes, desempregados, beneficiários de apoios sociais, moradores de bairros pobres, pessoas com baixa escolaridade. O relatório mostra que, em 2025, 35,1% das famílias monoparentais, 27% dos idosos sozinhos e 26,7% das famílias numerosas estavam em risco de pobreza. Mostra também que o risco de pobreza era mais elevado entre cidadãos estrangeiros, pessoas com baixa escolaridade e desempregados.
A criança pobre, portanto, é muitas vezes castigada duas vezes: primeiro pela pobreza em que vive; depois pelo preconceito lançado sobre a família de onde vem. Se é filha de migrantes, suspeita-se da sua pertença. Se vive numa família apoiada pelo Estado, suspeita-se da sua legitimidade. Se mora num bairro pobre, suspeita-se do seu futuro. Se a mãe está sozinha, julga-se a sua história. Se os pais estão desempregados ou em trabalho precário, transforma-se a fragilidade em defeito moral.

É aqui que entra a fobia aos pobres — a aporofobia — esse asco social disfarçado de exigência, esse desprezo elegante que não diz “odeio os pobres”, mas diz “não quero vê-los”, “não quero pagá-los”, “não quero que ocupem a minha escola, o meu hospital, o meu bairro, a minha rua, o meu país”. Os privilegiados nem sempre têm consciência da violência do seu olhar. Às vezes, confundem conforto com mérito. Outras vezes, chamam “responsabilidade individual” à recusa de reconhecer os mecanismos que lhes facilitaram o caminho.

A pobreza infantil desmonta essa mentira. Nenhuma criança escolhe nascer numa casa sobrelotada, numa família endividada, num bairro sem respostas, numa escola com menos recursos, numa mesa onde a alimentação saudável é uma impossibilidade económica. Nenhuma criança escolhe que os pais tenham contratos frágeis, salários baixos, doença, desemprego, falta de rede familiar ou estatuto migratório instável. Culpar uma criança pobre pela pobreza que herdou é uma das formas mais indecentes de cobardia coletiva.

Para a Doutrina Social da Igreja, esta discussão não é periférica. É central. A dignidade humana não depende do rendimento, da nacionalidade, da produtividade ou da utilidade económica. A Igreja afirma a opção preferencial pelos pobres como uma escolha fundamental, não como um ornamento piedoso. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja recorda que o amor preferencial pelos pobres é uma opção essencial proposta a todos os homens e mulheres de boa vontade.Também o Papa Francisco, na Fratelli tutti, nos recorda que São Francisco caminhava junto dos pobres, abandonados, doentes, descartados e últimos. A fraternidade cristã não é uma ideia decorativa: é uma forma concreta de reconhecer quem foi empurrado para as margens. E, na Evangelii gaudium, Francisco é claro: o dinheiro deve servir, não governar; os ricos devem ajudar os pobres, respeitá-los e promovê-los.

Por isso, uma comunidade que se reclama da fraternidade não pode aceitar uma política que usa os vulneráveis como bode expiatório. Não pode aceitar que a pobreza seja escondida para não perturbar a paisagem dos satisfeitos. Não pode aceitar que crianças pobres sejam tratadas como consequência natural da “má escolha” dos adultos. E não pode aceitar que se fale de apoios sociais como se fossem esmolas indevidas, quando muitas vezes são a última barreira entre uma criança e a fome, a exclusão, a vergonha ou o abandono.

Combater a pobreza infantil não é apenas aumentar prestações. É garantir habitação digna, alimentação adequada, acesso à saúde, creche, escola inclusiva, atividades culturais e desportivas, apoio às famílias monoparentais, integração de migrantes, combate à precariedade laboral e acompanhamento próximo das famílias mais vulneráveis. Mas é também combater a cultura do desprezo. Porque uma sociedade pode transferir dinheiro para os pobres e, ainda assim, continuar a humilhá-los.

A pergunta cristã não é “quanto nos custam os pobres?”. A pergunta cristã é: “que sociedade estamos a construir quando uma criança pobre nos incomoda menos do que o conforto de quem a quer longe?”. A resposta não se mede apenas no orçamento do Estado. Mede-se na forma como olhamos, acolhemos, protegemos e promovemos os mais frágeis.

A pobreza infantil é uma ferida aberta. E uma sociedade que se habitua a essa ferida perde mais do que justiça social: perde humanidade.

25/05/2026

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