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Cristianismo e intolerância política duas visões incompatíveis

O recente episódio em que os Missionários Espiritanos em Portugal se demarcaram publicamente de uma publicação anti islão associada a um deputado do Chega trouxe para o debate público uma questão essencial.

Cristianismo e intolerância política duas visões incompatíveis

Alexandre Nuno Teixeira é Gestor de Programas no Setor Social (Migrações) e Dirigente Associativo Voluntário (Movimento Associativo Popular e IPSS).

Até que ponto certos discursos políticos que dizem defender a civilização cristã são realmente compatíveis com aquilo que a própria Igreja Católica tem ensinado ao longo das últimas décadas.

Quando missionários católicos sentem necessidade de recordar que a fé cristã não pode ser utilizada para alimentar discursos de exclusão religiosa estamos perante algo que vai muito além de uma polémica política. Trata-se de uma questão moral e teológica. Existe hoje um desfasamento evidente entre a retórica identitária de parte da extrema-direita europeia e a posição assumida pela Igreja Católica no mundo contemporâneo.

O cristianismo como cultura de encontro:

Desde o Concílio Vaticano II realizado entre 1962 e 1965 a Igreja Católica assumiu de forma clara a necessidade de diálogo entre religiões. A declaração Nostra Aetate afirma explicitamente que a Igreja olha com respeito para os muçulmanos reconhecendo que também eles adoram o Deus único.

Esta visão não ficou limitada aos documentos conciliares. Foi assumida e aprofundada pelos papas das últimas décadas.

João Paulo II tornou-se um símbolo dessa abertura ao diálogo inter-religioso. Em 2001 entrou na Mesquita dos Omíadas em Damasco tornando-se o primeiro papa da história a realizar tal gesto. Nesse momento recordou que cristãos e muçulmanos partilham uma herança espiritual comum e que a paz entre os povos exige respeito mútuo.

O seu sucessor Bento XVI apesar de frequentemente retratado como um teólogo conservador também defendeu reiteradamente a importância do diálogo com o Islão e o reconhecimento da dignidade de todos os crentes.

Com Papa Francisco essa linha tornou-se ainda mais clara. Em 2019 assinou em Abu Dhabi com o Grande Imã de Al Azhar a histórica Declaração sobre a Fraternidade Humana documento que rejeita explicitamente a violência em nome da religião e promove a convivência pacífica entre culturas.

Na encíclica Fratelli tutti Francisco insiste numa ideia profundamente desafiante para o mundo político contemporâneo. A fraternidade humana não pode ser limitada por fronteiras religiosas culturais ou nacionais.

A continuidade no pontificado de Leão XIV:

Esta tradição de diálogo e de defesa da dignidade humana encontra continuidade no atual pontificado de Papa Leão XIV. O novo papa tem reafirmado a importância do respeito entre religiões e a necessidade de rejeitar discursos que transformem a fé em instrumento de divisão.

A linha de pensamento permanece coerente. A religião não deve ser utilizada como arma cultural contra o outro, mas como fundamento para a convivência pacífica entre povos.

Este posicionamento não surge por acaso nem é uma adaptação circunstancial ao contexto político atual. Trata-se de uma evolução profunda da reflexão da Igreja ao longo de mais de meio século.

A instrumentalização política da fé:

O problema surge quando a religião é utilizada como instrumento político.

Parte da extrema-direita europeia invoca o cristianismo como símbolo de identidade cultural contrapondo o ao Islão ou à imigração. Contudo essa narrativa ignora um facto essencial. O cristianismo não nasceu como uma identidade política destinada a excluir outros povos.

A mensagem central do Evangelho assenta na universalidade da dignidade humana.

Quando a fé é transformada numa fronteira cultural numa espécie de marcador de civilização contra o outro deixa de ser uma proposta espiritual e passa a ser um instrumento ideológico.

Uma contradição evidente:

É precisamente essa contradição que episódios como o posicionamento dos missionários espiritanos tornam visível.

Enquanto certos discursos políticos invocam o cristianismo para justificar exclusão religiosa ou cultural a própria Igreja insiste no caminho oposto diálogo fraternidade e reconhecimento da dignidade de todas as pessoas.

Desde João Paulo II até Papa Leão XIV passando por Bento XVI e Papa Francisco a mensagem essencial manteve se surpreendentemente consistente.

O cristianismo não foi pensado para erguer muros entre civilizações.

Foi pensado para construir pontes entre pessoas.

13/03/2026

A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de reflexão vinculam apenas quem os assina.

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