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A violência não tem religião. As pessoas têm.

Há uma ideia que me parece particularmente importante discutir: temos uma enorme facilidade em atribuir à religião os crimes cometidos por seres humanos.

A violência não tem religião. As pessoas têm.

Alexandre Nuno Teixeira é Gestor de Programas no Setor Social (Migrações) e Dirigente Associativo Voluntário (Movimento Associativo Popular e IPSS).

Quando um extremista muçulmano mata alguém, rapidamente aparece a palavra Islão. Quando alguém que é cristão pratica um ato de violência, procuramos muitas vezes outras explicações: políticas, sociais, psicológicas ou simplesmente individuais.

Esta diferença de tratamento devia fazer-nos pensar.

A História já nos mostrou vezes suficientes que o ser humano não precisa de uma religião para ser violento. Matámos em nome de Deus, mas também da pátria, da raça, da revolução, da classe social, do território, de ideologias e, muitas vezes, simplesmente do poder.

E aqui, enquanto católico, encontro também uma reflexão que considero importante.

O cristianismo não nos permite simplesmente colocar a origem do mal “nos outros”. Obriga-nos primeiro a olhar para o ser humano e para a sua liberdade. Para a sua capacidade de amar, mas também de odiar; de construir, mas também de destruir; de reconhecer o outro como irmão ou de o transformar num inimigo.

A violência começa muitas vezes precisamente aí: quando deixamos de reconhecer a humanidade do outro.

É também por isso que utilizar Deus para justificar a violência representa uma perversão da própria fé.

O Papa Francisco foi muito claro sobre isto: nenhuma violência pode ser praticada em nome de Deus. Utilizar a religião para justificar o ódio, a perseguição ou a morte não engrandece Deus — profana o Seu nome.

E esta posição não foi apresentada apenas aos católicos. No histórico Documento sobre a Fraternidade Humana, assinado em Abu Dhabi pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, cristãos e muçulmanos afirmaram conjuntamente que as religiões não podem incitar à guerra, ao ódio, ao extremismo ou ao derramamento de sangue.

Isto não significa negar a História.

Seria intelectualmente desonesto fazê-lo.

Cristãos utilizaram o cristianismo para justificar violência. Muçulmanos utilizaram o Islão para justificar violência. Nacionalistas budistas utilizaram elementos do budismo para legitimar perseguições. E regimes que rejeitaram completamente a religião também foram responsáveis por massacres, perseguições e milhões de mortos.

Por isso, talvez o denominador comum não seja Deus.

Talvez sejamos nós.

A religião pode ser manipulada porque tudo aquilo que mobiliza profundamente o ser humano pode ser manipulado: religião, nacionalidade, etnia, ideologia, medo, identidade ou sentimento de pertença.
E é precisamente aqui que considero que a mensagem cristã deve ser particularmente exigente.

Cristo não pergunta primeiro pela religião, nacionalidade ou origem daquele que sofre. A parábola do Bom Samaritano é extraordinariamente atual precisamente porque transforma aquele que pertencia ao grupo desprezado no homem que decide parar, aproximar-se e cuidar.

O próximo deixa de ser uma categoria.

Passa a ser uma pessoa.

Por isso incomodam-me frases que começam com “os muçulmanos são…”, “os cristãos são…”, “os judeus são…”.

Podemos e devemos criticar ideias religiosas. Devemos denunciar o fundamentalismo. Devemos combater práticas culturais ou religiosas que violem direitos humanos. E nenhuma religião deve beneficiar de imunidade à crítica apenas por ser religião.

Mas responsabilizemos quem deve ser responsabilizado: as pessoas que cometem os atos, os movimentos que os promovem, os regimes que os permitem e as ideologias que procuram legitimá-los.

Não comunidades inteiras.

Talvez, quando acontecer o próximo ato de violência, em vez de perguntarmos imediatamente “qual é a religião deles?”, devêssemos começar por perguntar:
O que aconteceu para que um ser humano deixasse de reconhecer outro ser humano como seu semelhante?

Para um cristão, há ainda uma pergunta mais incómoda:
Quando vejo no outro um muçulmano, um judeu, um migrante, um estrangeiro ou alguém que pensa de forma completamente diferente de mim, consigo ainda vê-lo primeiro como pessoa?

Porque podemos discutir religião durante horas.

Mas no centro do Evangelho continua uma exigência muito mais difícil de cumprir:

“Ama o teu próximo como a ti mesmo.”

17/09/2026

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