Votos sinceros de… Natal!
Uma palavra dedicada ao Natal é sempre um desafio. Antes de mais, de autenticidade, principalmente num tempo em que aumentam as desigualdades entre classes sociais, em que crescem os ódios antigos, adormecidos, de racismo, de colonialismo disfarçado, numa época em que se multiplicam as guerras em todo o mundo.

Duarte Nuno Morgado é formado em Teologia, membro de diversas associações de cariz cultural e social e atualmente Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Loures.
Que Natal é este? Que festa queremos comemorar? Que alegria é essa que abunda pelo marketing comercial em todo o mundo, mas que não parece referir-se à realidade social e económica de toda a humanidade? Talvez não entendamos o que estamos a celebrar.
Acredito com todo o coração de que boa parte de nós nem imagina de onde vem este tempo, bem como desconhece para onde nos leva. Ora, o Natal que hoje comemoramos tem várias expressões que não se limitam ao cristianismo e à sua fé, e que nos referem o desejo sincero de paz, de harmonia universal, de felicidade, de conforto nas casas, de sorrisos nas caras das crianças, de muitos doces à mão de todos, e por aí em diante. Falar do Natal tornou-se numa ritual sociológico em que todos desejam a todos o melhor que podem desejar. E afinal, o que nos diz o Natal cristão?
Esse Natal fala-nos da dura realidade de uma família de Nazaré que vive o realismo dos dias de perseguição, num tempo de ditadura, de tempos em que nem todos tinham uma habitação condigna assegurada, da falta de liberdade, da necessidade da paz entre os homens, de uma libertação em ato iniciada por um pequenino bebé, a partir de Belém, para todo o mundo. Jesus acaba por evidenciar na sua vida uma ampla proximidade junto dos desfavorecidos e dos marginalizados. Mas o seu nascimento não serve a necessidade de diagnóstico social, torna-se antes num grito de superação, porque a Família de Nazaré, disruptiva na comparação com tantas outras família organizadas de acordo com os preferidos judaicos de então, assume a vida como uma missão. Maria, a mãe agradecida pelo seu filho, confiante, mulher do silêncio operante, que tudo fazia para que a missão se cumprisse; José, o resiliente e persistente que confia que em Deus havia um plano maior, para lá de si, para todos; Jesus, aquele que traria o perdão das faltas, dos pecados, o príncipe da paz.
Na Sagrada Família, estão representados os traços essenciais de cada um de nós e de cada família. E no nascimento de Jesus a missão celebrada é a de que este mundo como o conhecemos pode ser mais perfeito, mais digno. Todos de poderão alegrar porque não foram postos de parte, abandonados, e todos terão a alegria de se juntar num banquete universal, sem exceção. Quando nos reunirmos em torno da mesa, num ambiente de festa, em tempos e Natal, lembremos que hoje somos a Família de Nazaré. Que hoje a missão continua em nós. Que somos lugares de encontro, de perdão, de resistência às tentativas de silenciamento sobre as desigualdades, que somos mensageiros de uma boa notícia: o Deus em que judeus, cristãos e muçulmanos acreditam, oferece a todos este lugar, que o Papa Francisco designou de ‘Casa Comum’.
Sejamos membros da mesma casa e sentemo-nos à mesma mesa, e comamos os resultados da nossa entrega e doação e saboreemos a alegria de estarmos todos por igual no coração de Deus. Sejamos irmãos e deixemos as falsas convicções que nos dividem, frutos do egoísmo que morrera sozinho, e construamos hoje esse novo mundo que Jesus veio inaugurar.
Um autêntico e feliz Natal!
