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O Profeta, o Advento e a Paz

A liturgia católica reformada no contexto do II Concílio do Vaticano, encontrou um modo de escutar as Sagradas Escrituras em ciclos de três anos - A, B e C, por forma a garantir que as comunidades pudessem aceder ao máximo possível dos textos sagrados nas suas celebrações eucarísticas.

O Profeta, o Advento e a Paz

Duarte Nuno Morgado é formado em Teologia, membro de diversas associações de cariz cultural e social e atualmente Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Loures.

E por isso, neste primeiro domingo do Tempo do Advento, preparatório do Natal, foi possível escutar numa das leituras, a voz do Profeta Isaías, profundamente relacionado com a temática da esperança do encontro final e feliz entre Deus e o Seu Povo. Nas suas palavras Isaías aparece como um arauto de notícias boas, mas desafiante nas suas propostas para que este Povo, esta massa de gente crente, viva de acordo com o Deus em que crê. Ouçamos as suas palavras troantes:

"Visão de Isaías, filho de Amós, acerca de Judá e de Jerusalém: Sucederá, nos dias que hão de vir, que o monte do templo do Senhor se há de erguer no cimo das montanhas e se elevará no alto das colinas. Ali afluirão todas as nações e muitos povos acorrerão, dizendo: «Vinde, subamos ao monte do Senhor, ao templo do Deus de Jacob. Ele nos ensinará os seus caminhos e nós andaremos pelas suas veredas. De Sião há de vir a lei e de Jerusalém a palavra do Senhor». Ele será juiz no meio das nações e árbitro de povos sem número. Converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices. Não levantará a espada nação contra nação, nem mais se hão de preparar para a guerra. Vinde, ó casa de Jacob, caminhemos à luz do Senhor."

Isaías fala-nos hoje, como naquele tempo, da necessidade de que haja uma conversão universal, dedicada à paz, à unidade, à colaboração de todos na construção do reino de Deus. Esse reino só será possível com a mudança radical no coração dos crentes, que ainda levantam armas, e se aniquilam entre si, na conquista de reinos terrestres, na busca de poderes que são limitados, e que por isso, resultam em mortes, em perdas, em destruição.

Como poderá haver um reino de felicidade eterna se cada um dos seus cidadãos não for construtor deste Templo que de todos será comum? A imagem de conversão das armas em relhas de arado, mostra que as armas de nada servem, porque delas nada pode nascer, por oposição evidente às alfaias agrícolas que estão ao serviço da vida, dos alimentos que a todos servirão. Isaías afirma que Deus será o próprio árbitro, o garante da paz, o elo que unirá as nações divididas. Mas para isso contará com o Seu Povo, e por isso Ele ensinará os Seus caminhos, desafiando os Seus crentes e segui-l'O.

Que belas palavras de encorajamento para uma vivência concreta do Advento! Porque se é de verdade que falamos quando celebramos a nossa fé, e porque se é verdade que sem paz não é possível sermos felizes, então, escutemos e avancemos. Sejamos capazes de transformar as nossas armas, as palavras desprovidas de bem, os olhares vazios de esperança, os gestos mortos pelo nosso egoísmo e pela sede de poder, e delas façamos instrumentos de trabalho, de progresso, de comunhão, de felicidade.

Sigamos o convite de Isaías e "caminhemos à luz do Senhor", porque a Sua luz veio para todos, veio para nos libertar da escuridão da indiferença, veio fortalecer-nos para que não nos falte a coragem de denunciar a morte fratricida e o desprezo pelos mais vulneráveis, e veio, por fim, para nos dizer que em Deus somos todos Seus filhos, todos sem exceção. Sejamos luminosos nas nossas vidas e nas nossas decisões!

5/12/2025

A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de reflexão vinculam apenas quem os assina.

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