Da Torre de Babel à Casa Comum: para uma renovada arquitetura humana
Por estes dias decorreu, na cidade do Porto, o evento literário Babell, prometendo ser um marco cultural para a invicta e para o país. Foi pensado e promovido pela centenária Livraria Lello, para comemorar os 120 anos da sua história.

Duarte Nuno Morgado é formado em Teologia, membro de diversas associações de cariz cultural e social e atualmente Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Loures.
Como mote, a organização quis afirmar o livro como "moeda, motor e fundamento", numa visão diferente para a cidade, tendo como imagem forte a torre bíblica, comummente denominada de Torre de Babel. E é a partir desta ideia que partilho estas linhas.
Descrito no Livro do Génesis, o edifício mítico simbolizaria, no pós-dilúvio, o atrevimento humano de conseguir impor-se à vontade divina, recusando voltar a sofrer um castigo semelhante. Assim, a humanidade unida na mesma causa, começou a erguer uma cidade tão alta com o objetivo de chegar ao céu. Reunindo todos os sobreviventes do dilúvio, num só povo, falava-se uma só língua, deixando de lado a vontade divina.
Vejamos o texto bíblico: "Ora toda a terra tinha uma só linguagem e um só modo de falar. Viajando os homens para o Oriente, acharam uma planície na terra de Sinear; e ali habitaram. Disseram uns aos outros: Vinde, façamos tijolos e queimemo-los bem. Os tijolos serviram-lhes de pedras, e o betume de cal. E disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre, cujo cume chegue até o céu, e façamos para nós um nome; para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra" (Gn 11,1-4).
Tratava-se de uma obra humana, com uma escala visionária, arriscada, exigindo uma técnica extraordinária, e grandes conhecimentos construtivos, e tudo isto sem a necessidade de qualquer ação divina. É o engenho humano expresso na sua capacidade máxima. Em tudo este é um processo normal, humano, compreensível, porque a humanidade pode entender-se a si mesma sem qualquer referência a um credo. Afinal, existimos, naturalmente, e toda a nossa experiência pode decorrer sem qualquer consciência de fé.
Mas podemos ter a ousadia de nos questionarmos se o modo como nos vemos existencialmente é suficiente sem a questão de Deus. No meu caso, e de muitos, acreditamos que de modo algum a nossa vida terá a mesma compreensão, ou o mesmo horizonte, se a dimensão espiritual desta vida não tiver lugar na discussão sobre quem somos e porque existimos.
A Torre de Babel é um exemplo do que a humanidade pode alcançar pelas suas capacidades técnicas e através da sua inteligência. Veja-se o paralelo estabelecido atualmente com o desenvolvimento da tecnologia digital e a criação da inteligência artificial, tema central da recente encíclica Magnifica Humanitas, na qual o Papa Leão XIV alerta precisamente para a escolha entre a construção de uma nova Babel ou de uma sociedade fundada na dignidade da pessoa humana. Contudo, a substituição de toda a ação divina, e até humana, pode trazer uma escuridão tremenda de sentido, acabando por se esgotar em si mesma, conduzindo-nos ao vazio, ao eterno nada.
Babel deve, por isso, recordar-nos que a monotonia não é o projeto que Deus tem para a humanidade, mas sim, a unidade na diversidade. Várias são as línguas, as culturas, como diversos são os costumes, ou diferentes são as formas de entender o mundo. No Livro do Génesis, Deus acabou por descer até junto da torre, dispersando a humanidade pelo mundo, atribuindo-lhe línguas diferentes, para que os povos não se entendessem entre si. Afinal, não será esse o maior desafio dado por Deus à humanidade? Não será essa a grande provocação depois de Babel?
Depois da grande dispersão, somos hoje capazes de desenhar novos caminhos confluentes, que nos permitam edificar uma Casa Comum, aquela de que nos falava Francisco na sua encíclica 'Laudato Si'. Aí terão lugar todos os povos, distintos entre si, onde todas as línguas são diferentes, congregados por uma língua que não nasce entre os homens, e por isso, convergente, e não divergente, mas que provindo do próprio Deus se torna unificadora, respeitadora da autenticidade de cada um: a linguagem do amor. Mas será que o queremos também?
Babel tem ainda muito a ensinar-nos, especialmente hoje, diante de uma humanidade cada vez mais deslumbrada com as suas conquistas, que não pára de erguer torres, altear muralhas, escavar fossos intransponíveis.
Vivemos em contínua tensão global, com os conflitos armados e a ameaça nuclear, ou as alterações climáticas. Mas mesmo entre nós há disparidades gritantes no elevador social, um acentuado desprezo pela justiça social, um abandono de uma cultura de proximidade e de confiança, para dar lugar a uma cultura da solidão, de empobrecimento emocional, de um desenfreado egoísmo.
A diversidade é por si mesma uma oportunidade magnífica de elevar a humanidade a uma qualidade de vida comum muito maior, mas ao invés desse caminho ascendente, dá-se preferência a um outro, descendente, de recusa à diferença, recordando-nos a tentação cíclica de haver quem considere poder decidir quem nasce para triunfar, e quem para servir.
Quando vemos que a torre mítica simbolizava uma monótona existência, num tempo primordial, tão distante quanto o nosso, e que teremos evoluído tanto até hoje, como pode ser possível vermos erguerem-se torres ainda maiores, mais arrogantes e prepotentes, que ignoram por completo a realidade antropológica como ela é à vista de todos?
Por oposição, a Casa Comum de Francisco é luminosa, arejada, cabe no mundo inteiro e é feita de grandes áreas, onde todos podem habitar, conviver, existir. Onde cada pessoa importa, e onde é reconhecida na sua dignidade. É evidente que este é um desenho muito complexo, cheio de desafios, de ordem técnica, mas enquanto uma torre é um único edifício esgotado em si mesmo, cuja função é elevar a nossa posição, limitando a nossa existência a um único ponto geográfico, a Casa Comum é o mundo todo, sem paredes ou barreiras, usufruindo daquilo que o mundo tem, da riqueza natural e cultural.
A verdadeira grandeza da humanidade nunca estará na magnificência das suas obras, mas na sabedoria de colocar o seu engenho ao serviço da construção de uma Casa Comum, onde cada pessoa encontre o seu lugar
