Ecos do dia 10 de Junho
O 10 de Junho é sempre celebrado com solenidade, como dia da Pátria soberana.

Foto: Jornal Renovação
Jorge Sarabando é activista cultural com obras publicada sobre história contemporânea, antigo autarca, e dirigente do PCP, com o Curso de Defesa Nacional do IDN.
Durante décadas de Ditadura, o Dia de Portugal tomava o nome de Dia da Raça, conceito um tanto difuso, que povoava nos anos 30 os textos constitucionais, mas depois, pela necessidade de suavizar a legislação colonial e mitigar os ventos da História, foi sendo abandonado. Mas Dia da Raça sempre ficou, nos últimos anos com parada militar, quando o Almirante Américo Tomaz e outros figurantes do Regime entregavam condecorações às famílias enlutadas dos militares mortos na Guerra do Ultramar.
Depois do 25 de Abril, tomou outra designação, mais apropriada, de Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Da Raça não poderia ser, pois o antigo império se transformou numa comunidade de língua portuguesa, de países soberanos e os seus povos iguais em direitos. Como bem assinalou Lídia Jorge, no seu memorável Discurso do 10 de Junho de 2025, “por aqui ninguém tem sangue puro. Cada um de nós é uma soma. Tem sangue do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou. Filhos do pirata e do que foi roubado. Mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas”.
Dia de Camões, igualmente, pela grandeza da sua obra e percurso da sua vida, por ser a Pátria onde nasceu há 500 anos. Nasceu mas onde nunca morreu, como afirmou Lídia Jorge, numa síntese que ajuda a compreender a identidade da Pátria portuguesa. Graças a muitas iniciativas ainda em curso, há hoje um conhecimento maior dos seus textos, que para gerações de estudantes pouco mais longe ia do que a divisão de orações nos “Lusíadas”.
Diferentemente da projecção universalista da sua obra, o discurso político dominante nos anos finais da Monarquia e iniciais da República foi tomado por um fervor nacionalista, que o Ultimato britânico acentuou. Faziam-se vistosos cortejos, a sua estátua no Chiado era lugar de romagem e nas intervenções públicas, mesmo de opositores políticos, se invocava em regra o nome de Luís de Camões, como aura de uma grandeza passada.
Assim se entende melhor a ironia dos versos de Almada Negreiros, na sua Cena do ódio, publicados em 1915, que ressumava do discurso da época: “a pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões”.
Dia das Comunidades, que nos lembra ter sido Portugal também país de emigrantes. Fugiam da fome, da miséria, da violência, em busca de uma vida melhor. Ondas de emigrantes partiram para o Brasil, nos secs. XIX e XX, para a América e a África, e nos anos 60 e 70 para França e outos países europeus, também para fugir à guerra. Nas últimas décadas voltou a crescer a emigração, sobretudo de jovens com melhores qualificações profissionais, procurando melhores salários e condições de vida. A lei publicada atribuindo benefícios a quem regresse tem tido pouco efeito.
Impressiona, pois, o êxito das forças políticas que exploram o ressentimento de muitas pessoas, de largas camadas da população, afectadas pela pobreza e a exclusão, procurando voltá-las contra os imigrantes ou, ainda, contra os vizinhos que “vivem à nossa custa”. A informação pública tem revelado que a criminalidade não aumentou, que os imigrantes contribuem com os descontos como todos os outros trabalhadores, que o RSI é exíguo e tem até diminuído. Pouco importa, são eles o rosto visível do seu infortúnio. Para o capitalismo neo-liberal, responsável pelo aumento das desigualdades sociais, da pobreza, incluindo a pobreza de quem trabalha, interessa que assim continue. Que nem por um momento se detenham a pensar na causa das causas do empobrecimento da maioria da população, um sistema económico que permite lucros diários de milhões de euros na Banca de um pequeno País periférico como Portugal, ou que se desenrole uma competição entre as maiores empresas mundiais para responder à seguinte questão: quantos minutos demoram para ganhar um milhão de dólares? A consultora financeira BestBrokers responde que há quem demore 18 minutos, mas há quem demore cerca de 4 minutos…(*).
10 de Junho, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Ao longo dos anos aconteceram discursos memoráveis, que vale a pena revisitar. Recordem-se o já citado discurso de Lídia Jorge, em 2025, ou o de Jorge de Sena, em 1977, ou do Cardeal D. Tolentino de Mendonça, em 2020.
Não há tempo nem espaço para referir outros discursos memoráveis que aconteceram nestes dias de Junho, em Espanha, por ocasião da visita do Papa Leão XIV. Entre outras intervenções, relevem-se a que o Papa pronunciou nas Cortes e a que fez nas Canárias, um acto de coragem naquele lugar onde chegam as pateras, cheias de gente em busca de uma vida melhor.
15/06/2026
A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de reflexão vinculam apenas quem os assina.
(*) Expresso , 12/6/26
