Greve Geral - Pelo direito a uma vida digna
Em Braga, numa plateia repleta de empregadores, o Primeiro-Ministro dizia não compreender a resistência dos sindicatos aos bancos de horas. Argumentava que não há mal nenhum nos bancos de horas, porque são acordados livremente entre empregadores e trabalhadores.

Miguel Friezas é licenciado em Sociologia e activista sindical.
Poderiam ser palavras ingénuas, mas não são. Fazem parte de uma narrativa que encara o trabalhador como um ativo ao serviço dos interesses da empresa e não como ser humano que é e que por isso mesmo tem direitos universais, sociais e laborais.
Seria bom que, por uma vez, quando se fala de bancos de horas os empregadores assumissem que já se praticam, com prejuízo para os trabalhadores, que veem as suas vidas desestabilizadas, sem que recebam qualquer compensação por isso.
Aproveitando a honestidade, seria bom que os empregadores revelassem que os lucros crescentes das empresas, não se devem exclusivamente ao jeito para gerir, mas devem-se também, e sobretudo, aos baixos salários que pagam.
Poderia acrescentar os milhares de trabalhadores que só por sorte têm um domingo por mês em família, devido a trabalharem por turnos ou até poderia falar da precariedade que ajuda o patronato a condicionar a opinião dos trabalhadores.
O pacote laboral que agora chegou à Assembleia da República, é a expressão de uma revange das muitas lutas que os trabalhadores e a generalidade dos portugueses fizeram contra a Troika e as suas políticas de empobrecimento.
Ao ser aprovado (e só será com o apoio da extrema-direita) certamente terá muitos aplausos dos empregadores, mas agravará a exploração sobre quem trabalha e contribuirá para vidas mais precárias e para o empobrecimento da democracia conquistada com Abril.
Engana-se quem pensa que retirar força interventiva aos sindicatos ou limitar o direito à greve trará melhores condições aos trabalhadores. Engana-se quem achar que o fim dos dias de luto por perda gestacional é uma proposta a pensar nas mulheres.
Obviamente que o Primeiro-Ministro sabe que não estava a falar verdade, apesar do seu tom cândido. Todos sabemos que no mundo do trabalho existe uma relação díspar de força e que o trabalhador é sempre o elo mais frágil.
O Governo sabe quem está a defender e os interesses em que se revê. A CGTP e os seus sindicatos também sabem quem defendem, mesmo na noite mais escura ou nas piores condições:- os trabalhadores, sempre.
A Greve Geral de dia 3 de Junho é o momento em que os trabalhadores têm a oportunidade de mostrar ao Governo e aos patrões que percebem qual é a sua intenção e com grande determinação e confiança vão rejeitar o pacote laboral.
Há muitos anos que não era tão necessária a unidade na ação. A Greve Geral é a resposta necessária e urgente, adequada e proporcional ao tremendo ataque à dignidade humana, que o pacote laboral prevê.
Os cristãos em Portugal sempre estiveram do lado da dignidade humana e a Greve Geral precisa deles e da coragem já demonstrada noutras ocasiões, para defender a solidariedade, a justiça social e o humanismo.
Aos cristãos é necessário que se juntem todos os outros credos. Motivos para lutar não faltam e já hoje existem milhares de imigrantes, muçulmanos ou hindus, que são a expressão mais visível da exploração capitalista em Portugal. Imagine-se como será com o pacote liberal vertido em Lei.
Razões de sobra para que seja derrotado.
Todos à luta. Unidos venceremos.
1/06/2026
A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de reflexão vinculam apenas quem os assina.
