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Expulsemos os vendilhões

Desde sempre que tenho uma admiração pela Bíblia e pelas histórias que nos transmite, considerando que muitas vão para além das direcções espirituais e que reflectem momentos que tendem a repetir-se.

Expulsemos os vendilhões

Miguel Friezas é licenciado em Sociologia e activista sindical.

Fascina-me e respeito Cristo por tudo quanto representa na invocação da paz, da solidariedade e na construção de um mundo fraterno e mais igualitário.Por estes dias e perante aquilo que o nosso povo está a sentir com o aumento dos preços - insuportável para muitas famílias- lembro-me quando Jesus Cristo expulsou os vendilhões do templo.

Cristo era pacifista, mas não conteve a sua indignação quando viu no que tinha sido transformado o templo. Não admitiu que a espiritualidade estivesse aliada a negociatas, pois os valores que invocava e que perduraram até aos dias de hoje, não podem estar sujeitos a mercantilismos.

Nesse episódio bíblico, Jesus de Nazaré revoltou-se. Expulsou os vendilhões e deu outra lição que espero nunca se venha a perder: “dar a outra face” não é sinónimo de acoitamento e que há momentos em que a indignação, a revolta são as únicas alternativas transformadoras.

Cristo abanou por diversas vezes os pilares conformistas que à época sustentavam uma ordem que subjugava e desprezava os mais desprotegidos. Aliás como hoje vemos acontecer cada vez com mais veemência.

O cabaz alimentar em Portugal está hoje mais caro do que nunca, os combustíveis alcançaram valores inaceitáveis, o preço da habitação continua a subir e a tornar-se cada vez inacessível e até foi encontrada uma forma de expor e lucrar com a pobreza mais degradante através do sistema Volta.

Por outro lado, vemos o governo de Portugal e líderes europeus, mais interessados em investir em armamento e em alianças que fortalecem as bancas dos novos vendilhões enquanto os valores que deviam imperar vão sendo subjugados à tirania do mercado.

Num momento em que as famílias, os trabalhadores, os reformados e o povo em geral veem as suas condições de vida a degradarem-se de forma abrupta devido à ganância dos grupos económicos, urge tomar atitude e expulsar esses vendilhões modernos.

Sem violência, o nosso “chicote” será a razão, a esperanca, a unidade e determinação de quem precisa e quer uma mudança séria. Uma mudança que diga que basta de fazerem negócio com as nossas vidas e com aquilo que é essencial para viver.

Um “chicote” que deve ser audível ao longo deste “mês de luta” que antecede a manifestação nacional da CGTP-IN, convocada para Lisboa, Porto e Coimbra no dia 17 de Outubro e que é o momento certo para dar expressão à indignação popular contra os vendilhões.

Pelo que me diz respeito, troco os lucros das gasolineiras e da banca por melhores salários e pensões, troco o investimento na guerra por casas acessíveis e troco os esquemas dos hipermercados por um reforço dos serviços públicos.

Compreendamos que o que está a suceder nas nossas vidas é obra do profano e não do divino, revoltemo-nos, tomemos posição e expulsemos os vendilhões.

1/10/2026

A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de reflexão vinculam apenas quem os assina.

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