Beijos de Judas
As Eleições Presidenciais e o trabalho.
Conta-nos a Bíblia que a traição de Cristo foi lacrada com um beijo de Judas Iscariotes. Por ambição ou ganância, Judas traiu Jesus Cristo que por sua vez lhe chamou “amigo”. Nos dias que correm, basta ligar a televisão e repetidamente vemos beijos de Judas na Constituição da República Portuguesa e nos valores humanistas e progressistas que esta consagra.

Miguel Friezas é licenciado em Sociologia e activista sindical.
Certamente que todos temos mais ou menos razões de queixa do actual ponto de situação em que se encontra a sociedade, mas aqueles que se dedicam por inteiro à causa política deveriam compreender o valor da democracia e o que custou a conquistar, fazendo por respeitar e exaltar aquilo que de bom Abril nos trouxe.
O Presidente da República não é um árbitro, assumindo uma posição de neutralidade, deixando que os mais fortes exerçam força sobre os que menos podem. Ao Presidente da República cumpre defender e fazer cumprir a constituição, nomeadamente no que diz respeito aos direitos dos trabalhadores.
A nossa Constituição não é neutra, pelo contrário traça um rumo de desenvolvimento económico, social e político, em que os trabalhadores são valorizados e os seus direitos respeitados. À luz do texto fundamental todos os trabalhadores são iguais e todos devem ter acesso ao trabalho com direitos, não sendo essa afirmação mera semântica.
Respeitar os trabalhadores é não discriminar independentemente da sua nacionalidade, é defender melhores salários, apoiar os sindicatos para que os trabalhadores tenham mais força reivindicativa, é defender a conciliação entre a vida laboral e familiar, é ser sempre solidário com as lutas e com a sua máxima expressão, a Greve, e não apenas quando fica bem eleitoralmente.
É não pôr em causa a Constituição, e é não defender três Salazares, esse sinistro ditador que de braço dado com os interesses corporativos empurrou milhões de trabalhadores para a miséria, a fome, a prisão política e a guerra.
Defender os trabalhadores é perceber que o padeiro que faleceu a semana passada enquanto distribuía pão às 05h em Vila Franca de Xira, apesar de origem indiana, era um trabalhador, e aceitar que só com igualdade de direitos, também os trabalhadores portugueses terão melhores condições de vida. Melhorar as condições de vida e erradicar a pobreza é um desígnio incompatível com o egoísmo e a ambição que caracterizam a traição de Judas.
Judas não era um estranho, tinha presença diária na vida de Jesus e aproveitou essa vantagem para, egoisticamente, satisfazer os seus interesses pessoais para lá das consequências que daí adviessem para o povo. Em 2026, e em especial durante a campanha para as eleições presidenciais, com a proximidade que os media permitem, assistimos diariamente ao candidato do Chega a vociferar uma narrativa oportunista, a espalhar discriminação e desinformação com falsas promessas de justiça social e laboral, ganhando proximidade para dar o derradeiro beijo da traição à democracia, ao povo e aos trabalhadores.
Trinta moedas foi quanto Judas recebeu para beijar Cristo. Os beijos de hoje surgem como contrapartida de milhões de euros de grupos económicos e grandes empresas que desrespeitam direitos dos trabalhadores e procuram fugir ao contributo para um país mais justo e igual, lembrando a frase: “não é possível estar bem com Deus e o Diabo”.
Perante as dificuldades da vida, as adversidades e sentimentos de injustiça, os beijos de Judas iludem, aparentam conforto, mas a sua consequência para os trabalhadores é dramática.
Dificilmente os que defendem a abertura dos hipermercados ao domingo para assim acumularem mais riqueza, os que dizem que os Sindicatos prejudicam, que os custos salariais são elevados quando na realidade a distribuição de riqueza é das mais desiguais da Europa, aceitariam apoiar Judas se não quisessem nada em troca.
Termino a citar o Papa Francisco: “Também hoje existem pessoas que querem servir a Deus e ao dinheiro, exploradores escondidos, aparentemente impecáveis, mas fazem comércio com as pessoas: vendem o próximo”. “Pensemos nos muitos Judas institucionalizados neste mundo, que exploram as pessoas. E pensemos também no pequeno Judas que cada um de nós tem dentro de si na hora de escolher: entre lealdade ou interesse”. (08/04/2020, Missa).
5/02/2026
A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de reflexão vinculam apenas quem os assina.
