Traditio in communione servatur
A recente excomunhão ligada à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), fundada em 1970 pelo arcebispo Marcel Lefebvre, deve ser recebida sem triunfalismo. Uma excomunhão nunca é uma vitória. É sempre um sinal de ferida, de ruptura, e de fracasso no caminho da comunhão.

Sérgio Dias Branco é professor da Universidade de Coimbra, dirigente da CGTP-IN, e leigo da Ordem Dominicana da Igreja Católica.
No entanto, também não deve ser relativizada como simples conflito de sensibilidades litúrgicas. O que está em causa não é apenas a preferência pela Missa em latim, nem o apego a determinadas formas de culto. A questão é mais profunda: prende-se com a autoridade da Igreja Católica, com a recepção do Concílio Vaticano II, e com a recusa prática de caminhar com o Povo de Deus sob a orientação do sucessor de Pedro.
O decreto do Dicastério para a Doutrina da Fé foi publicado depois das sagrações episcopais realizadas em Écône, na Suíça, sem mandato pontifício e contra a vontade expressa do Papa Leão XIV (1). A Santa Sé considerou esse acto de natureza cismática, declarando a excomunhão latae sententiae — isto é, incorrida automaticamente pelo próprio facto de se cometer o delito — dos bispos e padres envolvidos e a situação de potencial excomunhão dos clérigos da FSSPX e dos leigos que adiram formalmente a esse cisma. É importante dizer que nem todos os católicos que têm sensibilidade tradicional são lefebvrianos, nem todos os que valorizam a liturgia tridentina rejeitam o Vaticano II, e nem todos os que se sentem desorientados por mudanças na Igreja desejam romper com o bispo de Roma. Confundir tudo seria injusto e desonesto.
Seja como for, é ingénuo fingir que a FSSPX é apenas expressão de uma piedade estética ou de uma nostalgia inofensiva. O movimento nasceu e cresceu em ambientes que, em vários países, se cruzaram com sectores sociais reacionários, famílias abastadas, redes de influência cultural e política, e uma visão hierárquica da sociedade. Isto não significa que todos os seus fiéis pertençam a estas elites. Significa, antes, que a sua imaginação religiosa encontrou muitas vezes apoio em meios que desconfiam da democracia moderna, das lutas sociais que marcaram o século XX, da liberdade religiosa, do ecumenismo, do diálogo inter-religioso, e do caminho sinodal da Igreja. Há aqui uma dimensão política que não pode ser ignorada. A rejeição do Vaticano II não é apenas uma disputa interna sobre ritos. É também a rejeição de uma Igreja que procurou reconhecer a dignidade da consciência, abrir-se ao diálogo com o mundo contemporâneo, abandonar a tentação de se confundir com poderes sociais estabelecidos, e afirmar a liberdade religiosa como um direito humano fundamental e um pilar do bem comum e da paz. A resistência a esse caminho exprime, muitas vezes, a saudade de uma cristandade entendida como ordem social, onde a fé católica ocupava o centro simbólico da vida pública e onde as diferenças eram toleradas apenas enquanto permanecessem subordinadas. Ora, a tradição cristã não é a conservação de privilégios. É transmissão viva da fé. E a fé cristã não se preserva fechando-se numa fortaleza identitária, mas permanecendo ligada ao Corpo de Cristo, que é sempre maior do que qualquer grupo, rito, ou sensibilidade.
A Igreja conhece e reconhece a importância da memória, porque sem memória, a fé perde as suas raízes históricas. Porém, a memória cristã não é um museu, mas traça um caminho. A tradição não consiste em repetir o passado contra o presente, mas em discernir, com fidelidade e esperança, como o Evangelho continua a chamar cada tempo à conversão. Nesse sentido, o Vaticano II não foi uma traição ou um recuo, mas um momento decisivo da sua escuta: escuta da Palavra, escuta dos sinais dos tempos, e escuta da humanidade concreta. Daí que o problema da FSSPX não seja amar demasiado a tradição, mas absolutizar uma imagem da tradição contra a comunhão e contra a autoridade da Igreja que diz querer servir. Quando a tradição é separada da comunhão, deixa de ser tradição católica para ser uma espécie de pertença ideológica.
Esta crise deve interpelar também os progressistas que procuram viver a sua fé na Igreja. Seria fácil olhar para este momento como confirmação das derivas reacionárias há muito denunciadas. Todavia, a resposta cristã não pode ser o desdém. Há pessoas sinceras envolvidas nestes meios: famílias, jovens, sacerdotes, e fiéis que procuram Deus, que amam a liturgia, e que desejam estabilidade espiritual num mundo frequentemente fragmentado. A Igreja deve falar-lhes com verdade, mas também com misericórdia. A firmeza canónica só será plenamente evangélica se permanecer aberta à reconciliação, como a própria Igreja tem procurado fazer (2). A excomunhão não deve ser entendida como expulsão definitiva, mas como declaração dolorosa de uma ruptura que precisa de cura. A disciplina da Igreja existe para proteger a comunhão, não para alimentar uma cultura de castigo.
O desafio, agora, é evitar duas tentações. A primeira é a dos que transformarão esta decisão numa prova de perseguição e numa nova narrativa de martírio identitário. A segunda é a dos que a usarão para caricaturar todos os católicos ligados à tradição litúrgica tridentina. Nenhuma delas serve a verdade. A Igreja sempre acolheu uma grande diversidade de sensibilidades, ritos, espiritualidades, escolas teológicas, e formas de vida cristã. Basta pensar na variedade das ordens religiosas, das tradições monásticas, mendicantes e missionárias, dos caminhos contemplativos e apostólicos, para perceber que a unidade católica nunca significou uniformidade. O que serve a verdade é afirmar que esta diversidade só é verdadeiramente católica quando permanece em comunhão. A Igreja não pode ser reduzida a uma trincheira cultural de elites religiosas contra a modernidade, nem a uma associação de gosto litúrgico separada do destino comum da humanidade. A Igreja é sacramento de comunhão. A tradição conserva-se na comunhão — traditio in communione servatur.
Num tempo marcado por desigualdades profundas, guerras de agressão, nacionalismos excludentes, desprezo pelos pobres, e hostilidade aos migrantes, a fidelidade católica mede-se também pela capacidade de reconhecer o Senhor nos humilhados e de defender, em cada pessoa ferida ou descartada, a dignidade humana que nada pode apagar. A ferida aberta pela ruptura da FSSPX não deve ser escondida, mas talvez possa tornar-se ocasião para recordar algo essencial: a Igreja não pertence às elites, aos puros, ou aos guardiões autoproclamados da verdadeira fé. Pertence a Cristo — que não chama os seus discípulos a preservar um mundo perdido, mas a anunciar, em comunhão, o Reino que vem.
13/07/2026
A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de reflexão vinculam apenas quem os assina.
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(1) Dicastério para a Doutrina da Fé, “Decreto, Prot. N. 99/2009”, 2 Jul. 2026, https://www.doctrinafidei.va/content/dam/dottrinadellafede/documenti/2026-07-02-Decreto-FSSPX.pdf.
(2) Dicastério para a Doutrina da Fé, “Prática para a reconciliação dos sacerdotes provenientes da Fraternidade Sacerdotal São Pio X”/“Prática para a reconciliação de alguns leigos provenientes da Fraternidade Sacerdotal São Pio X”, 2 Jul. 2026, https://www.doctrinafidei.va/content/dam/dottrinadellafede/documenti/2026-07-02-Prassi-riconciliazione.pdf.
