O Papa Leão XIV e Gaza
O Papa Leão XIV tem sido alvo de críticas por parte de alguns sectores que o acusam de não ter a mesma veemência que o Papa Francisco em relação aos massacres, ao bloqueio e à ruína em Gaza, como se o actual pontífice se mantivesse a observar em silêncio uma tragédia que clama por profecia.

Sérgio Dias Branco é professor da Universidade de Coimbra, dirigente da CGTP-IN, e leigo da Ordem Dominicana da Igreja Católica.
Contudo, essa leitura simplista não resiste a uma análise atenta dos seus discursos e gestos públicos. Longe de uma neutralidade passiva, Leão XIV e a Santa Sé têm-se pronunciado de forma clara e reiterada sobre o sofrimento do povo palestiniano, as responsabilidades das forças israelitas, o direito internacional, o imperativo moral de pôr fim à violência que tem devastado a região e a necessidade urgente de paz. Este é o retrato de Gaza como campo de morte: mais de 65 mil palestinianos mortos, incluindo 18 592 crianças, segundo as autoridades locais, e quase dois milhões de palestinianos deslocados das suas casas, de acordo com a ONU.
Desde o início da nova escalada do conflito, o Papa tem demonstrado uma atenção constante à situação em Gaza. Numa das suas primeiras audiências gerais, apelou a que a ajuda humanitária pudesse entrar no território sitiado e a que cessassem as hostilidades, sublinhando que o “preço dilacerante” das operações recai “sobre as crianças, os idosos e os doentes”. Reafirmou depois que acompanha “com profunda preocupação” a crise humanitária em Gaza, onde a população civil vive sob fome e bombardeamentos, e renovou o apelo a um cessar-fogo imediato, à libertação dos reféns do atentado de 7 de Outubro de 2023, coordenado pelo Hamas, que vitimou 726 civis, incluindo 36 crianças, e ao respeito pelo direito internacional humanitário. Durante o Angelus de 14 de Setembro, foi peremptório: “Não existe futuro baseado na violência, no exílio forçado e na vingança.”
Na sequência do ataque das forças israelitas à Igreja da Sagrada Família, na Faixa de Gaza, o Papa manifestou dor e indignação, reiterando a posição que tem mantido. O bombardeamento, que matou três pessoas e feriu várias outras que se abrigavam dentro do complexo paroquial, foi denunciado pela Santa Sé como um acto “gravemente contrário ao direito humanitário e à consciência moral”. O Papa Leão XIV expressou “profundo pesar e repúdio pelo ataque injustificável contra uma casa de oração onde se refugiavam civis indefesos, muitos deles crianças e mulheres”, exigindo que “as forças israelitas e todos os exércitos envolvidos ponham fim de imediato à violação de locais sagrados e de espaços de refúgio humanitário”. O comunicado da Santa Sé, divulgado no mesmo dia, acrescentava que “nenhum objectivo militar pode justificar a destruição de um santuário e a morte de inocentes”, e pedia uma investigação internacional independente sobre mais um episódio que resultou na morte de civis desarmados.
Durante a audiência geral seguinte, o Papa retomou o tema num tom pastoral, mas firme: “Peço a Deus que converta os corações de quem ordena e executa tais ataques. Nenhum povo pode ser libertado através da morte de outro.” E, evocando o mandamento “Não matarás”, apelou a todos — líderes políticos, militares e religiosos — para que respeitem a “dignidade inviolável de cada pessoa”. Este pronunciamento, amplamente difundido, foi interpretado por observadores internacionais como a condenação mais directa feita por Leão XIV à conduta militar israelita desde o início do conflito.
O Papa não se tem limitado a palavras: manteve contacto directo com o pároco da Igreja da Sagrada Família, que abriga centenas de civis, garantindo apoio logístico e diplomático através do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Em declarações públicas, Leão XIV disse lamentar “profundamente o êxodo massivo e o sofrimento sem medida do povo palestiniano, que continua a ser forçado a fugir de casa sem destino nem refúgio”.
A sua crítica às forças israelitas tem sido consistente: o Papa condenou expressamente “a punição colectiva de populações civis”, “a destruição de hospitais e escolas” e “o uso desproporcionado da força”, práticas que classificou como “moralmente inaceitáveis e juridicamente condenáveis”. Ao mesmo tempo, mantém o apelo à libertação de reféns e à segurança de todos os povos da região, insistindo que “nenhum acto de terror pode justificar a vingança indiscriminada”.
As críticas a Leão XIV apoiam-se muitas vezes no facto de que ele evita certas categorias jurídicas — como o termo “genocídio” — de forma antecipada. É importante lembrar que a Santa Sé nunca utilizou esse termo oficialmente, nem mesmo no pontificado de Francisco. É certo que Francisco chegou a sugerir que a situação em Gaza devia ser investigada à luz do conceito de genocídio, mas isso não é o mesmo que utilizar esse termo. O relevante, nos dois pontificados, é a voz do Papa contra as violações da dignidade humana. Centrar a discussão apenas no uso desse termo é fechar os olhos à denúncia feita por vozes com linguagens muito diferentes, mas que convergem na acção. Seja como for, vale a pena mencionar que, na Igreja Católica, há organizações que utilizam esse termo, como a Pax Christi, o movimento católico internacional ao serviço da paz.
Em paralelo, Leão XIV tem procurado manter o diálogo diplomático com as autoridades israelitas. Nos seus encontros com o Presidente de Israel e com representantes do Governo, reafirmou a necessidade de “um compromisso político corajoso para a criação de dois Estados independentes e seguros, com Jerusalém como cidade de paz partilhada”. Esta posição, que retoma a doutrina diplomática clássica da Santa Sé, contrasta com a actual política israelita de abandono progressivo da solução de dois Estados, vista no Vaticano como um obstáculo grave à paz duradoura. O Papa tem reiterado que “sem o reconhecimento recíproco de soberania e dignidade entre israelitas e palestinianos, não haverá segurança para nenhum dos lados”. Em reuniões privadas e nas suas intervenções perante diplomatas, Leão XIV insiste que a paz não pode nascer “de muros, mas de pontes”, e que “a justiça não é vingança, mas reparação partilhada”.
É precisamente esta capacidade de equilíbrio moral — firme sem ser incendiária, pastoral sem ser neutra — que caracteriza o pontificado de Leão XIV. Ao contrário do que dizem os seus críticos, o Papa não tem sido menos veemente que Francisco. O seu estilo é metódico, diplomático e atento à dimensão humana de cada gesto, sem deixar de dizer a verdade. Enquanto Francisco falava com a paixão de um profeta, Leão fala com a precisão de um pastor que conhece as fragilidades do mundo e a complexidade da paz. Francisco e Leão XIV partilham o mesmo horizonte: a defesa da dignidade humana e o repúdio da violência como instrumento político.
Hoje, quando o ruído das armas cobre o som dos apelos e das preces, a voz de Leão XIV continua a erguer-se com a autoridade de quem acredita que a fé cristã não pode ser cúmplice da injustiça. Num tempo em que tantos falam em nome da justiça para justificar a guerra, Leão XIV fala em nome da paz para salvar a humanidade. E é essa voz — firme, paciente, profundamente evangélica — que permanece como um dos poucos sinais de esperança numa paisagem ferida pelo ódio.
1/10/2025
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