Nem Morno, Nem Odioso
Na segunda volta das eleições para Presidente da República, o país não escolhe apenas um nome. Escolhe uma atitude perante a democracia no espaço público.

Sérgio Dias Branco é professor da Universidade de Coimbra, dirigente da CGTP-IN, e leigo da Ordem Dominicana da Igreja Católica.
André Ventura não é apenas um candidato com ideias polémicas: representa um estilo de intervenção assente na polarização permanente, na fabricação de inimigos, e num uso recorrente — e frequentemente instrumental — da religião como marca identitária e arma cultural. Não é preciso que um discurso seja abertamente violento para ser odioso: basta instilar hostilidade, alimentar suspeitas, e transformar pessoas em alvos, sobretudo as mais vulneráveis. Quando a política deixa de reconhecer o outro como próximo, começa a preparar o terreno para a desumanização.
Esse uso torna-se particularmente visível quando Ventura — tal como outros dirigentes do Chega, entre os quais Rita Matias — cita, com frequência, Apocalipse 3:15-16: “Conheço as tuas obras: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente. Assim, porque és morno — e não és frio nem quente — vou vomitar-te da minha boca.” A passagem é eficaz como frase de choque. Serve bem o ritmo de comício, o apelo à dureza, a estética da “coragem” contra os “mornos”. O que pode ser eficaz na retórica pode ser profundamente errado na leitura bíblica — e perigoso no seu efeito político. Neste caso, a citação funciona como senha de combate: deixa de iluminar consciências e passa a acender antagonismos. Quando isso acontece, a fé é reduzida a mero instrumento: perde em densidade espiritual o que ganha em oportunismo político.
O texto do Apocalipse não é um slogan para humilhar adversários, nem um certificado de legitimidade para quem grita mais alto. É uma advertência espiritual dirigida à comunidade de Laodiceia, criticando uma fé acomodada, autossuficiente, e indiferente ao que é essencial. O alvo da crítica não é a moderação política, nem o compromisso democrático, nem a prudência institucional. O alvo é a tibieza moral que se instala quando a vida se reduz ao conforto e quando a consciência se anestesia. A “mornidão” de que fala o Apocalipse não é a recusa do conflito, mas a recusa da conversão. Não é contra a serenidade ou o equilíbrio, mas contra a indiferença e a complacência. Não denuncia quem procura pontes, mas quem perdeu a coragem de amar com exigência.
Quando Ventura transforma esta passagem num ataque àqueles que não alinham com o seu tom, está a fazer um desvio decisivo: substitui a exigência espiritual de coerência e verdade por uma lógica de campo e de combate, como se “ser quente” significasse ser agressivo, implacável, intransigente, e como se “ser frio” fosse, paradoxalmente, mais honesto do que procurar justiça com prudência. O Apocalipse, porém, não é uma convocatória para a dureza, mas um apelo a que a comunidade desperte para aquilo que perdeu. É um texto sobre discernimento, não sobre ressentimento. Sobre fidelidade, não sobre fúria. E, sobretudo, não é um texto que autorize a política do inimigo. Chama à conversão do coração, não à legitimação da hostilidade.
A instrumentalização bíblica torna-se ainda mais grave quando é acompanhada por alarmismo religioso, como a ideia de uma suposta “invasão islâmica”. Debater imigração, integração, segurança, e coesão social é legítimo e necessário. No entanto, a retórica que identifica uma presença religiosa minoritária com uma ameaça civilizacional não é debate responsável: é produção de medo. O medo, quando se torna método, prepara o terreno para o ódio — não necessariamente o ódio explícito, mas o ódio estrutural, aquele que se constrói por insinuação, repetição e suspeita. O ódio contemporâneo raramente se apresenta como ódio: apresenta-se como “coragem”, como “dizer as verdades”, como “não ter papas na língua”. Os seus sinais são reconhecíveis: generaliza-se um grupo inteiro como problema, associa-se diferença a perigo, normaliza-se o boato e a humilhação pública, e cria-se uma atmosfera em que certos cidadãos passam a ser vistos como menos pertencentes a uma comunidade política. É assim que o discurso se torna odioso: não por exprimir discordâncias, mas por fabricar desconfiança e legitimar a exclusão.
A Doutrina Social da Igreja é clara no essencial e não deixa espaço para ambiguidades oportunistas. Gaudium et Spes, uma das quatro Constituições Pastorais do Concílio Vaticano II em 1965, coloca a dignidade humana no centro da vida social e recorda que tudo o que degrada o ser humano é contrário ao desígnio de Deus. O cristianismo não permite que a dignidade seja distribuída por hierarquias culturais, étnicas, ou religiosas. Cada pessoa é pessoa antes de ser categoria. Por isso, qualquer política que dependa de suspeitar de comunidades inteiras para mobilizar apoio está em contradição com o núcleo ético do catolicismo. A dignidade humana não pertence apenas aos “nossos”: é o ponto de partida de qualquer política justa, que deve ter como foco o rosto concreto do próximo.
Também Pacem in Terris, encíclica do Papa João XXIII de 1963, insiste que a ordem social e política só é justa quando se funda no reconhecimento de direitos e deveres universais. O bem comum não é o conforto moral da maioria, nem a tranquilidade construída à custa da exclusão de minorias. O bem comum é aquilo que permite a todos viver com dignidade, e isso exige políticas sérias — de justiça social, de combate à pobreza, de habitação, de educação, de integração — não uma política de espetáculo permanente, onde o adversário é sempre inimigo e onde o medo serve para dispensar soluções.
Há ainda um ponto decisivo que rebate o uso identitário da fé: a liberdade religiosa. Dignitatis Humanae, declaração sobre a liberdade religiosa do Concílio Vaticano II de 1965, afirma que ninguém deve ser coagido em matéria religiosa e que a liberdade de consciência e de culto decorre da própria dignidade humana. Este princípio não é um favor da maioria: é um direito humano. Por isso, defender a “matriz cristã” de Portugal não pode significar negar a outros aquilo que os cristãos exigem para si. Se a fé cristã se torna pretexto para restringir a presença pública de outra religião, então já não é fé: é poder identitário, vazio de credibilidade moral.
Neste sentido, o verdadeiro efeito da citação do Apocalipse, repetida como arma política, não é o de chamar à conversão, mas à divisão. Não desperta a consciência, excita a hostilidade. Não eleva o debate, reduz o país a um campo de batalha moral onde só há “quentes” e “mornos”, “corajosos” e “cúmplices”. Uma democracia não se constrói com esse tipo de linguagem. Constrói-se com firmeza e serenidade, com responsabilidade e justiça, com capacidade de governar conflitos sem destruir a comunidade. Não há nada de cristão numa política que precisa de inimigos para se afirmar, nem nada de patriótico em fragilizar a convivência social para colher votos.
O Papa Francisco, na encíclica Fratelli Tutti de 2020, denuncia precisamente esta lógica: a política que precisa de inimigos para existir, que transforma o outro em ameaça e que se alimenta do ressentimento. A fraternidade não é um adorno para um cristão, mas uma exigência. Quando um líder político usa Deus para legitimar o medo, está a esvaziar a fé do seu conteúdo mais exigente: a responsabilidade pelo outro, a recusa da desumanização, e a construção paciente do bem comum. A fraternidade não é uma fraqueza: é a força de um caminho que sara as feridas de uma humanidade dividida por conflitos e guerras.
Nesta segunda volta, votar é também decidir se aceitamos que a Bíblia seja usada como slogan e que a fé seja reduzida a bandeira de campanha. Deus não é bandeira. A fé cristã não precisa de guerra cultural para existir. Precisa de verdade, justiça, e amor ao próximo. Um país não se defende fabricando ameaças religiosas nem transformando o espaço público num palco de suspeita. Defende-se com democracia adulta: firme nos princípios, humana no olhar, e responsável na linguagem. Nem morno na consciência, nem odioso no discurso.
29/01/2026
A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de reflexão vinculam apenas quem os assina.
