25 de Abril, Fé e Liberdade
O 25 de Abril não foi apenas uma mudança de regime político. Foi a conquista de algo mais profundo: a possibilidade de cada pessoa pensar, falar, organizar-se, e acreditar sem receio. Isto é, foi uma libertação política, mas também uma libertação da consciência — e esta dimensão diz respeito também à religião.

Sérgio Dias Branco é professor da Universidade de Coimbra, dirigente da CGTP-IN, e leigo da Ordem Dominicana da Igreja Católica.
Durante décadas, o regime fascista do Estado Novo apresentou-se como defensor da “civilização cristã”. A religião surgia como parte da identidade oficial do país, muitas vezes associada à ordem social existente. A realidade mostrava que não era assim na base da Igreja Católica, onde houve padres, leigos, e movimentos que resistiram à ditadura e pagaram caro por isso. Institucionalmente, no entanto, instalou-se uma proximidade entre o poder político e a religião que acabou por serviu mais a repressão do regime do que a libertação do Evangelho.
Quando a fé se aproxima demasiado do poder, corre sempre o risco de perder a sua liberdade. Uma fé sem liberdade deixa de ser testemunho para se tornar justificação. O 25 de Abril ajudou também a quebrar essa lógica.
A democracia trouxe algo essencial numa democracia: a liberdade religiosa e a separação entre o Estado e as confissões religiosas. Não se trata de hostilidade à religião. Pelo contrário, trata-se de garantir que nenhuma crença pode ser imposta nem usada como instrumento de poder. Um Estado verdadeiramente livre não tem religião oficial, porque o seu dever é proteger a liberdade de todos.
Para quem conhece o Evangelho, isto não é estranho. Jesus nunca procurou proteger-se com o poder político. Pelo contrário, falou a partir de fora desse poder, colocando-se ao lado dos pobres, dos oprimidos, e dos excluídos. A sua autoridade não vinha da proximidade aos poderosos, mas da fidelidade à dignidade humana.
Talvez por isso tantos cristãos tenham estado presentes nas lutas sociais que prepararam o caminho para a democracia. Trabalhadores, sindicalistas, militantes associativos, pessoas de fé que perceberam que defender os direitos laborais, a justiça social e a liberdade política não era um desvio da fé, mas uma consequência directa dela.
A fé cristã, quando é levada a sério e molda convictamente a vida, não se acomoda à injustiça. Não aceita que a pobreza seja tratada como destino inevitável nem que a desigualdade social seja apresentada como ordem natural. O Deus bíblico escuta o clamor dos oprimidos. Quem acredita neste Deus não pode ficar indiferente às estruturas que produzem exclusão.
Por isso, recordar o 25 de Abril também é recordar que a liberdade política e a justiça social caminham juntas. Não basta poder votar se a vida continua marcada pela precariedade, pela desigualdade, ou pela falta de direitos no trabalho. A democracia não deve ser vista apenas como um sistema institucional, mas como um processo contínuo de construção de uma sociedade mais justa. Porque a democracia só se cumpre plenamente quando a liberdade política se traduz em dignidade concreta na vida das pessoas.
A religião não deve substituir a política, mas também não se deve calar perante a injustiça. Quando permanece fiel ao seu núcleo ético — a dignidade da pessoa, a fraternidade, o cuidado pelos mais frágeis — pode ser uma voz crítica e necessária na vida pública. Talvez seja essa a melhor forma de honrar o 25 de Abril também do ponto de vista da fé: recusando qualquer nostalgia de alianças entre altar e poder, e escolhendo antes estar onde o Evangelho sempre apontou — ao lado de quem luta por dignidade, trabalho justo, e liberdade real.
A liberdade conquistada em Abril não foi oferecida de cima. Foi construída por pessoas comuns, muitas vezes anónimas, algumas delas movidas também pela fé. Defender hoje essa liberdade significa continuar a cuidar dela: na política, no trabalho, nas associações, nas comunidades. Significa, sobretudo, lembrar algo simples, mas exigente: a fé não precisa de privilégios para existir. Precisa apenas de liberdade — e de uma consciência fiel, lúcida e comprometida.
22/04/2026
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