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Reflexão: Fr. José Nunes
Parar a espiral da guerra

Fr. José Nunes é sacerdote dominicano e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.

Como se poderá adivinhar, a minha presença no painel de intervenientes desta iniciativa “Parar a espiral da guerra”, intervenientes de várias crenças e diversos quadrantes ideológicos, só pode significar o juntar de uma voz cristã a esta vontade de pôr fim à guerra e dar corpo a um desígnio de paz.

 

E então começaria por citar os dois últimos papas da Igreja. Leão XIV, na primeira palavra que teve ao apresentar-se como Papa, foi claro: «A paz esteja convosco» (a lembrar, afinal, a primeira palavra de Jesus após a sua ressurreição: «a paz esteja convosco», aliás frase repetida). O mesmo Leão XIV, na Mensagem para o Dia Mundial da Paz (1 de Janeiro de 2026), propôs uma «Paz desarmada e desarmante». Quanto ao Papa Francisco, com tantas palavras e acções em nome da paz, apenas lembraria uma sua afirmação em 15 de Novembro de 2015: «usar o nome de Deus para justificar a guerra ou o terror, é uma blasfémia».

 

Não esquecendo nem escondendo que a Igreja, no seu caminhar histórico, também foi protagonista de violências e guerras, creio que é indesmentível que ela é hoje uma instituição verdadeiramente ao serviço da paz. Recordaria penas alguns dados e factos mais recentes. O Papa João XXIII escreveu a importante encíclica Pacem in Terris e foi um mediador decisivo entre os dirigentes da então União Soviética e dos EUA, no tempo da Guerra Fria. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, falou do alcançar urgente da paz, através do pôr fim à guerra, do desarmamento e do diálogo e entendimento entre as nações. O Papa Paulo VI criou o Dia Mundial da Paz (1 de Janeiro de 1968), e a sociedade civil acolheu-o muito favoravelmente.

 

Finalmente, e para não ir mais longe, eis as palavras do cardeal Pietro Parolin, neste 4 de Março de 2026, acerca destas actuais guerras que grassam no mundo: «Se aos Estados fosse reconhecido o direito à ‘guerra preventiva’, segundo critérios próprios e sem um quadro jurídico supranacional, o mundo correria o risco de se encontrar em chamas. É realmente preocupante o declínio do direito internacional: a justiça foi substituída pela força, a força do direito foi substituída pelo direito da força, com a convicção de que a paz só pode nascer depois do inimigo ter sido aniquilado, com uma lógica de impor a própria ordem aos outros, evitando o árduo, porém nobre, trabalho da política, composto de negociações, discussões e concessões aos outros (…) E ainda mais grave é invocar o direito internacional para atender às próprias conveniências (…) Há vários casos em que a comunidade internacional se indigna e toma medidas, e casos em que não o faz, ou o faz muito menos, dando a impressão de que há violações do direito que devem ser punidas e outras que devem ser consideradas ‘danos colateriais’. Ora, não há mortes de primeira e segunda classe, nem há pessoas que tenham um direito maior de viver do que outras simplesmente por terem nascido num continente em vez de outro ou num determinado país».

 

E é esta perspectiva que o cristianismo, num diálogo sério com outras grandes tradições religiosas (diálogo inter-religioso) e com todos os homens e mulheres de boa vontade (expressão de João XXIII), procura fomentar, hoje em dia, em todos o mundo: uma Paz verdadeira, alicerçada na justiça e fraternidade universais.

06.04.2026

A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de reflexão vinculam apenas quem os assina.

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