
Reflexão: Pedro Estorninho
O futuro somos nós
Pedro Estorninho é encenador e escritor, director artístico da companhia TEatroensaio de Arraiolos, e católico.
Nesta tormenta que tem fustigado o país, duas frases — ou dois desabafos que ouvi e li — acompanharam os meus dias. A primeira, escrita (e depois dita) num centro de trabalho de determinado partido político, na Marinha Grande, que, nas primeiras horas da catástrofe, abriu portas, serviu refeições e partilhou víveres e agasalhos incansavelmente, dizia assim: «Este não é o meu partido, mas foi o que me acolheu!» A outra encontrava-se escrita numa tarja que cobria parte de um edifício em ruínas: «Só o povo salva o povo!»
Nisto lembrei-me de uma passagem do Eclesiastes, ou Qoeleth (aquele que reúne, que convoca a assembleia):
«Voltei-me e vi todas as opressões
que acontecem debaixo do sol.
E eis as lágrimas dos oprimidos,
e não há ninguém que os console.
Da mão dos que oprimem
vem a força,
e não há ninguém que os console.»
Uma onda de humanismo ergueu-se sobre as águas, assim posso dizer, vinda de todas e todos — dos que sentiram na pele e dos que, à distância, assistiram. Como o caso de um casal sírio que, já sem tecto, não descansou enquanto os bombeiros não descansaram. O Futuro somos nós!
Milhares de voluntários, cidadãos anónimos, acudiram com o seu trabalho, esforço, mantimentos, roupas e muita fraternidade, vindos de cidades e aldeias, de Norte a Sul. O Futuro somos nós!
Que enorme aquela mulher, com um filho ao colo, afirmando: «Não conseguia... não sei quem consegue dormir descansado com estas pessoas assim!» O Futuro somos nós!
Claro que surgiram, como sempre surgiram ao longo dos séculos, os mascarados de piedades e intenções, a demagogia a saldo, lavada com lágrimas de crocodilo e chuva de desinteligência artificial. Isto não é o futuro!
Lembro também, e digo sem exagero, que, tal como Lorca e outros fizeram em tempos tenebrosos, o “Teatro do Botão”, apesar das dificuldades, abriu portas, recebendo crianças e seus familiares, alimentando-os de pão e arte, vincando e confirmando aquilo que muitos querem abater: a Cultura, a Arte salva! Neste caso, mediada pelo teatro, esse que existe há cerca de três mil anos e nasceu no mesmo local e a par da Democracia. O Futuro somos nós!
No entanto, no meio do profundo caos, o tal povo que salva o povo decidiu, soberanamente, a palavra com três milénios: “Democracia”, dentro e fora de fronteiras.
O Futuro somos nós!
18.02.2026
A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de reflexão vinculam apenas quem os assina.
