O Evangelho Segundo os Detentores de Activos Próprios
«Dar-te-ei todo este poderio e a sua glória, porque me foi entregue e dou-o a quem me aprouver. Se te prostrares diante de mim, tudo será teu» (Palavras do CEO dos Detentores de Activos Próprios).

Joaquim Mesquita é operário fabril do sector alimentação, dirigente da CGTP-IN, e militante da Base-FUT e da LOC-MTC.
Que fantástica proposta e tu, Cristo, recusaste! Que estupidez! Afinal, que te custava firmares esse acordo, sem testemunhas, em pleno deserto?; um acordo com gente poderosa que te garantiria poder e domínio sobre o povo que sempre resiste e não entende que é inevitável ter de adaptar-se às mudanças do que se designa de economia de mercado.
Neste século de extraordinário desenvolvimento tecnológico, não há espaço para o teu lirismo. Já não necessitamos dos teus milagres para curar doentes e para matar a fome às multidões. Aliás, se repetisses a tua ordem, «Dai-lhes vós mesmos de comer», ninguém te ouviria. De qualquer modo cairias no ridículo. Hoje, a mentalidade é a do espírito vencedor e das proezas individuais. Pobreza?! Não há! Existe apenas nas visões distorcidas de quem quer viver à custa do esforço alheio. Só é pobre quem quer. Um emprego não é suficiente? Pode-se sempre ter dois empregos… ou três. Constituir família? Não há problema, as crianças, tal como os velhos, estão semi-institucionalizadas nas IPSSs, um dos grandes avanços civilizacionais, dizem, da sociedade. Casa para morar? Temos grandes e excelentes amigos que generosamente nos oferecem sempre a melhor solução – os Bancos.
A liberdade é a bandeira e o símbolo dos nossos tempos e, com inteligência e sentido de responsabilidade, todos entendemos que se fala da liberdade de escolha. Para que não haja dúvidas, do púlpito das igrejas é feita a apologia dessa liberdade para a Saúde e, presumo, igualmente para o Ensino, porque também de lá nos informam (confesso que não me dei ao trabalho de confirmar) que o funcionamento das escolas públicas resulta num custo cinco a seis vezes superiores às escolas privadas. Basta ter dinheiro (muito…) e todas as escolhas são possíveis. Há quem se queixe das desigualdades sociais! Mas, se não houvesse ricos, quem daria esmolas aos pobres? Quem suportaria o tal “trabalho socialmente útil” a troco de subsídios, que alguns, malevolamente, classificam de exploração agravada?
Falta ainda abordar essa questão dos “subsídios”. Em nome da justiça, da honestidade e da ética propõe-se a reestruturação e novos critérios de atribuição das prestações sociais sob a denominação de PSU (mais uma sigla entre muitas, para que ninguém entenda do que se está a tratar, mas, já agora, leia-se “Prestação Social Única” e que em português corrente significa “devolver aos pobres o que lhes foi roubado, sem juros”). Salvo raras excepções, muitos dos actuais beneficiários irão manifestar-se no sentido de se sentirem prejudicados e, até, excluídos (que falta fazes, Papa Francisco…). Mas deixemo-nos de fantasias e olhemos pelo lado certo do prisma. Afinal, o que significará “dar a César o que é de César”? Sejamos racionais! Não é o “capital” que, do nada, faz parir capital? Então porque dar a outros, e não ao “capital” (na denominação mais actual, “detentores de activos próprios”), os talentos que lhe pertencem por natureza?
Sei que vou entrar em contraciclo, mas seja-me permitida uma reflexão. Estranha civilização, esta, que sujeita a humanidade ao vil metal, ergue muros e em nome da paz faz a guerra. E o povo, que trabalha, pobre – pobre em espírito porque ignora que nasce com direitos –, aceita o que lhe ditam, que a sua grande virtude é ser honrado na sua pobreza, e que este vale de lágrimas é o caminho perfeito para alcançar o paraíso, sinalizado nas encruzilhadas da vida com a feliz nomenclatura de “Cidade da Conciliação de Classes”.
Não terá sido isto, ó Cristo, que pregaste nas Bem-Aventuranças, mas sem surpresa para ti, há quem se esforce por perverter a tua mensagem de fraternidade, e por isso nos alertaste: os filhos das trevas são mais espertos que os filhos da luz. Mas não terminamos sem expressar a nossa profissão de fé: permaneces o nosso Mestre, continuamos a acreditar que Deus é nosso Pai e que todos os Homens são irmãos. Fica a garantia dos crentes de que haverá sempre um Resto Fiel empenhado na missão profética e sacerdotal na concretização, aqui e agora, do teu projecto para a humanidade a que chamaste Reino de Deus. Quando voltares, ainda encontrarás fé sobre a Terra.
7/08/2026
A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de reflexão vinculam apenas quem os assina.
