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A exigência da solidariedade cristã

Pela primeira vez em décadas, os portugueses – e não só os portugueses – estão a concluir que as próximas gerações irão viver pior do que as que lhes antecederam.

A exigência da solidariedade cristã

Joaquim Mesquita é operário fabril do sector alimentação, dirigente da CGTP-IN, e militante da Base-FUT e da LOC-MTC.

A habitação escasseia e está a um preço inacessível a muitos, o custo de vida agrava-se em especial sobre os preços dos bens essenciais, e particularmente sobre a alimentação; os serviços públicos e funções sociais do Estado (Saúde, Ensino, Segurança Social) degradam-se e caminham para o colapso. Ao mesmo tempo, sobre as condições de trabalho paira a ameaça da aprovação do “pacote laboral” que, se se concretizasse, acentuaria o desequilíbrio já muito favorável ao patronato e deixaria os trabalhadores sujeitos a uma enorme arbitrariedade.

Esta ofensiva contra os trabalhadores tem suscitado a reprovação da parte de figuras públicas, conscientes das motivações ideológicas que lhe estão subjacentes. As organizações sindicais, as primeiras a reagir, continuam a lutar, afirmando princípios e valores em que acreditam e com os quais procuram garantir condições de trabalho e de vida dignas aos trabalhadores e a todo o ser humano, ser social em que a família ocupa um lugar especial. Na arena política, naturalmente que as posições divergem e até se opõem, com os partidos da designada direita a defenderem o “pacote laboral” que apresentam como positivo, não esclarecendo que é positivo somente para o patronato – nem sequer para a economia.

As designadas democracias liberais, que se identificam e sustentam as economias neoliberais, têm vindo a desenvolver sociedades profundamente desumanizantes. Pais sem filhos e filhos sem pais nem avós, famílias que não sabem como encontra-se em um dia pelo menos por semana, gente que não sabe como pagar uma casa para morar e como comprar comida para a família, medicamentos que ficam por comprar, idas ao dentista que são uma miragem... Tudo porque muitos vínculos de trabalho são precários, o salário é demasiado baixo e os horários de trabalho são construídos na base da garantia da exploração do trabalhador que, na óptica do neoliberalismo, só existe e tem valor enquanto produtor e consumidor.

O sofrimento humano é um desafio à solidariedade, e os cristãos têm disso consciência. Sabem que o seu chamamento se identifica com a missão de construir o Reino, dando seguimento à vocação do próprio Emanuel de anunciar a Boa-Nova aos pobres, libertar os cativos e emancipar os oprimidos(1). Nós, cristãos, sabemos que é um caminho exigente, sobretudo porque implica o nosso compromisso na transformação da sociedade(2). Não servem proclamações de fé, e não têm significado, a não ser de hipocrisia, as manifestações retóricas ou ritualistas (agora na moda…) se não queremos fazer o milagre de partir com os outros o pão que temos: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim”(3”). Não esqueçamos nunca o testemunho dos “Discípulos de Emaús”, que identificaram o crucificado como o profeta coerente nas palavras e nas obras e que passou pelo mundo fazendo o bem(4). Não esqueçamos a entrega total de D. Óscar Romero ou do padre jesuíta Ignacio Ellacuría. Os trabalhadores, os marginalizados destes tempos, esperam a concretização das promessas messiânicas, só possível com o contributo pessoal de cada crente na construção de uma sociedade justa, solidária e fraterna.

19/05/2026

(1) Lc 4,18-19
(2) Mt 5,16 “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossa boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu”
(3) Mc 7,6; Is 29,13
(4) Lc 24,19; At 10,38

A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de reflexão vinculam apenas quem os assina.

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