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Uma perspetiva budista sobre a paz

Nenhuma tradição religiosa global é a favor da guerra. Apesar de muitas guerras terem sido feita em nome da religião, ou em seu nome alimentadas, a verdadeira razão dessas guerras foi sempre o poder e nada mais que o poder.

Uma perspetiva budista sobre a paz

Nuno Peixinho é investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço e da Universidade de Coimbra, dirigente do Sindicato dos Professores da Região Centro/FENPROF, e membro da Wild Flower Zen Sangha.

A religião foi um mero instrumento. Um instrumento muito útil. Tão útil que acreditamos ter sido a base da discórdia. E, ainda hoje, em inúmeros conflitos por este mundo, somos levados a crer, de forma deliberada ou simplista, que são conflitos religiosos. Xiitas contra sunitas, muçulmanos contra judeus, cristãos contra muçulmanos, católicos contra protestantes, budistas contra muçulmanos, e todas as combinações possíveis onde duas tradições religiosas coexistam.

No passado, houve quem lançasse foguetes com o fim da guerra fria. No presente, há quem dispare mísseis em guerra quente. Enquanto a Ucrânia ainda arde, ardendo também Gaza, o Iémen, o Sudão, o Mianmar e mais umas dezenas de regiões, eis que se larga fogo também no Irão. Dizem-nos ser uma guerra contra o fundamentalismo, mas, tal como todas as outras, é uma guerra de poder. Há alguém que quer vencer e alguém que não quer ser vencido.

A diversidade de tradições, ou escolas, budistas é grande, e inúmeras são as interpretações de eventos, textos, conceitos e de como melhor agir no mundo. Porém, em todas concordamos que o ódio, a ganância e a ignorância —os Três Venenos — são a origem do sofrimento e que nada existe de forma isolada, permanente ou independente — a Originação Dependente. Tudo depende de outra coisa para existir, tudo depende de causas e condições anteriores: se isto é, aquilo é, se isto já não é, aquilo deixa de ser.

Na tradição Zen, interpretamos até que a Originação Dependente e o Vazio, são a mesma coisa. Se tudo depende de outra coisa para existir, nada possui uma essência em si: tudo é vazio de poder existir por si só. Daqui a interconexão entre todas as coisas e todos os seres e a base da compaixão no budismo. Não se trata de não causar sofrimento ao outro por este também ser um irmão, um filho do mesmo deus, trata-se de não causar sofrimento ao outro porque ele é também todo e cada um de nós.

Seja com o cómico “somos todos irmões” de Vasco Santana, seja com o poético “somos Um” do Zen, é porque nos separamos do outro, pelo ódio, pela ganância e pela ignorância que criamos as guerras. E toda a guerra é uma amputação, pois os cadáveres, mais do que filhos e irmãos de alguém, são de facto uma parte de nós.

27/03/2026

A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de reflexão vinculam apenas quem os assina.

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