O grupo “Slant” e o sonho de uma Igreja revolucionária (2)
Talvez nenhuma das ideias do grupo seja tão característica, e tão fecunda, como a articulação entre a liturgia eucarística e o ideal de uma sociedade socialista. Para o grupo Slant, a Eucaristia não é um rito separado da vida quotidiana, um refúgio de sentido espiritual num mundo secularizado, mas o modelo antecipado – e, em certa medida, já realizado sacramentalmente – daquilo que a transformação revolucionária da sociedade haverá de tornar histórico.

Carlos Cunha é jurista, dirigente intermédio da Administração Pública, e membro da Igreja Católica.
A celebração eucarística é, assim, a encenação ritual de uma comunidade onde os bens são partilhados, onde ninguém é «proprietário privado da sua própria existência» e onde a divisão entre quem produz e quem consome, entre quem trabalha e quem usufrui do trabalho alheio, é simbolicamente abolida. A desigualdade básica de bens materiais, responsável segundo o grupo por toda uma superstrutura de privilégio e exploração no capitalismo, encontra na mesa eucarística o seu reverso exacto: ali, o pão partilhado e o vinho comum tornam visível uma forma de vida que a sociedade capitalista impede.
A reforma litúrgica pós-conciliar, com a celebração na língua vernácula, foi saudada pelo grupo precisamente por permitir, finalmente, que a liturgia deixasse de parecer «um drama expressionista obscuro de autoria estrangeira» e passasse a assemelhar-se ao acto comunitário que sempre fora chamada a ser.
O trabalho humano, por sua vez, é entendido como participação activa na Redenção. Transformar a natureza, submetê-la ao controlo da comunidade humana e não a forças alienantes e impessoais – eis a tarefa que, no plano histórico, o socialismo partilha com a Eucaristia no plano sacramental. Sob o capitalismo, argumentava Eagleton num dos primeiros números da revista, a relação do homem com a realidade é necessariamente falsa. Só o trabalho libertado da alienação permite uma relação verdadeira com o real.
Se o entusiasmo programático do grupo deve muito a Eagleton e aos editores mais jovens, o seu enquadramento teológico mais rigoroso deve-se sobretudo a Herbert McCabe, dominicano e uma das figuras maiores da teologia inglesa do século XX. Colaborador "semi-desvinculado" da revista, McCabe trouxe ao projecto uma precisão quase escolástica, fundada tanto na tradição tomista como na filosofia da linguagem de Wittgenstein.
O grande contributo de McCabe foi o de conciliar o universalismo da vocação da comunidade humana (que deveria incluir crentes e não crentes, católicos e marxistas seculares) com a particularidade confessional da Igreja Católica. McCabe alicerçou teologicamente a recusa da identificação da Igreja, enquanto instituição visível, com a própria comunidade da graça. A Igreja não é um clube de iniciados, mas um sinal e expressão de uma nova forma de ser humano, oferecida e não imposta, ao mundo inteiro. Todos, todos, todos, diremos hoje, com as palavras do Papa Francisco.
Ainda assim, e ao contrário do optimismo predominante entre os colaboradores mais jovens da revista, McCabe nunca perdeu de vista uma visão trágica da condição humana. A frase pela qual viria a ficar mais conhecido – «se não amares, morrerás; e se amares, matar-te-ão» – está bem distante do entusiasmo milenarista que caracterizava boa parte do grupo Slant nos seus anos de maior fulgor. Esta tensão entre o optimismo revolucionário dos anos 60 e o realismo quase estóico de McCabe revelou-se, com o tempo, profética: foi precisamente o ensaio que McCabe publicaria já em 1980, "A Luta de Classes e o Amor Cristão", escrito muito depois do encerramento da revista, que se tornaria a contribuição mais duradoura do círculo Slant ao pensamento católico de esquerda contemporâneo, ao argumentar que o compromisso político radical não é um acréscimo à fé, mas decorre natural e directamente da própria ortodoxia teológica.(1)
A revista terminou em Janeiro de 1970, vítima do esgotamento financeiro da editora e do refluxo geral das esperanças revolucionárias com que a década de 60 se encerrava, dentro e fora da Igreja. O seu núcleo nunca excedeu uma dúzia de colaboradores regulares, e a tiragem máxima rondou os dois mil assinantes – números modestos para uma publicação que se viu, ainda assim, na primeira linha de polémicas públicas, suspeita de pretensões a "marxistas católicos" e alvo de rumores segundo os quais o episcopado inglês procurava silenciá-la.
Apesar da sua curta existência, a importância do grupo Slant excede largamente a sua dimensão. Foi através das suas páginas que o mundo de língua inglesa teve um dos seus primeiros contactos com Dom Hélder Câmara, o "Bispo Vermelho" de Recife, cujos textos a revista publicou e cuja visita ao Reino Unido os seus colaboradores ajudaram a organizar, estabelecendo, assim, uma ponte precoce entre o radicalismo católico britânico e aquilo que, na década seguinte, se consolidaria na América Latina como teologia da libertação. O próprio Eagleton reconheceria anos mais tarde que o Slant havia chegado "com uma década de avanço".
Vários dos colaboradores do Slant prosseguiriam trajectórias relevantes: Terry Eagleton tornar-se-ia uma das vozes mais influentes da crítica literária marxista mundial, regressando nas últimas décadas, e de forma sistemática, às questões teológicas que tinha discutido na juventude (alguns dos seus livros estão publicados em Portugal, pelas Edições 70). Leo Pyle chegaria a colaborar com o governo de Salvador Allende no Chile. Outros prosseguiriam carreiras académicas, editoriais e jornalísticas de relevo.
A questão que Terry Eagleton colocara a Laurence Bright num pub de Cambridge, em 1964 – «até onde pode um católico ir para a esquerda?» –, permanece, meio século depois, sem resposta definitiva. E é talvez essa abertura, mais do que qualquer doutrina fechada, o legado mais fiel que o Slant nos deixou: a convicção de que a fé cristã, longe de ser indiferente à organização concreta da sociedade, exige dela própria sacramentalmente, na Eucaristia partilhada, e historicamente, na luta contra a alienação, uma resposta radical.
04/08/26
A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de apresentação de leituras sugeridas, vinculam apenas quem os assina.
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(1) Outro livro definidor do posicionamento dos membros do grupo Slant é “The Gospels: Jesus Christ”, de Terry Eagleton, Verdo Books, 2007.
