top of page

O grupo “Slant” e o sonho de uma Igreja revolucionária (1)

Entre 1964 e 1970, num Reino Unido sacudido pelas reformas do Concílio Vaticano II e pela efervescência da Nova Esquerda britânica, um pequeno grupo de jovens católicos – a maior parte deles estudantes ou recém-licenciados de Cambridge, oriundos de famílias operárias de origem irlandesa – lançou uma revista que viria a marcar, de forma desproporcionada à sua tiragem, a história do pensamento católico de esquerda em língua inglesa: a Slant.

Carlos Cunha é jurista, dirigente intermédio da Administração Pública, e membro da Igreja Católica.

O nome do movimento que dela nasceu, habitualmente designado como "Nova Esquerda Católica", não é, todavia, inteiramente exacto. Importa começar por aqui, pois entender por que razão essa designação é insuficiente ajuda-nos a compreender o que de facto estava em causa.

A história tem um ponto de partida quase anedótico. O Pe. Laurence Bright, frade dominicano, físico nuclear de formação e antigo agnóstico convertido ao catolicismo (e simultaneamente ao socialismo), reunia-se regularmente em Cambridge com um círculo de jovens católicos, entre eles Terry Eagleton, que viria a tornar-se um dos mais influentes filósofos e teóricos literários do século XX. É dele a pergunta fundadora, dirigida ao Pe. Bright, num pub local: até onde pode um católico ir para a esquerda? A resposta de Bright, "tudo quanto quiseres", tornou-se, de certo modo, o lema implícito de toda o projecto.

Para um católico português, este pano de fundo não será inteiramente estranho. Também entre nós a transição entre o catolicismo conservador do Estado Novo e a participação de muitos católicos na oposição ao regime do Estado Novo, na Revolução e no processo democrático subsequente passou por uma reapropriação radical (no sentido etimológico do termo, relativo à raiz) do Evangelho como exigência de transformação social. Pensemos nas comunidades de base, no papel de padres operários ou na recepção tardia, mas significativa, da teologia da libertação latino-americana. O grupo Slant antecipou, com uma década de avanço e num contexto protestante-secular muito distinto, parte dessa mesma inquietação.

O projecto do grupo Slant ultrapassou em muito as preocupações da Nova Esquerda britânica acrescidas da palavra de Cristo. Palavras como "cultura", "linguagem", "liturgia" e "literatura" não foram simplesmente importadas do vocabulário da Nova Esquerda para um contexto católico: foram reescritas à luz daquilo que os colaboradores da revista chamavam «as implicações plenas de um radicalismo cristão».

O ponto de partida intelectual é bem identificado. O Slant insistia em que a fé não pode confinar-se à interioridade da consciência individual, alheada do mundo. Esta crítica visava directamente um certo catolicismo pós-conciliar que perpetuava um modelo dualista da acção humana ao fazer da crença pessoal a condição prévia, e isolada, da acção no mundo envolvente, que vimos, ouvimos e lemos. Contra esta interiorização da fé, o grupo Slant propunha uma leitura do conceito marxista de alienação que se sobrepõe, ponto por ponto, à noção teológica de queda e pecado.

No segundo dos seus artigos na revista Slant, Adrian Cunningham, um professor Estudos Religiosos na Universidade de Lancaster, parte da convicção de que a função da Igreja no mundo é a preparação do Reino de Deus, e é a partir desta premissa que reinterpreta o trabalho alienado como um estado de pecado, integrando-o num quadro propriamente teológico. Para isso, regressa às narrativas bíblicas da queda – Éden e Babel –, lendo-as como momentos em que o trabalho para o Reino de Deus é frustrado, num paralelo com a vida actual em que a condição caída do homem se manifesta numa pertença a uma comunidade incompleta, em que os processos do trabalho pelos quais o homem cria e transforma o seu ambiente, a sua sociedade e a si mesmo, não estão plenamente sujeitos ao seu controlo, permanecendo irredutivelmente fortuitos, como que manipulados por um agente exterior, parasitário. Ou seja, trabalho alineado. A equivalência é assim quase termo a termo: o pecado original deixa de ser lido como falta moral individual e passa a designar precisamente aquilo que Marx chamava alienação, a expropriação do controlo do homem sobre o seu próprio trabalho e sobre as estruturas que ele cria.

É aqui que se situa uma das contribuições mais originais, e mais polémicas, do grupo, a distinção entre reforma e revolução eclesial. Para os elementos do grupo Slant, a generalidade da recepção do Concílio Vaticano II pelos católicos ingleses (e, na verdade, por boa parte do episcopado europeu) equivalia a um simples aggiornamento, um "pôr a Igreja em dia" sem alterar as suas estruturas profundas. Esta atitude foi por vezes comparada, com ironia, ao reformismo do Partido Trabalhista britânico (e dos correspondentes partidos da esquerda europeia): tratava-se de retoques cosméticos, não de uma reconfiguração das relações de poder, propriedade e exploração que atravessavam tanto a sociedade civil como a própria instituição eclesiástica.

Os então denominados "liberais" eram acusados de procurar uma conversão de corações sem tocar nas estruturas económicas e sociais que produzem a desumanização concreta dos homens. Mudar a consciência individual sem mudar as condições materiais que a condicionam equivale, na lógica do grupo, a deixar intocada a verdadeira raiz do pecado – entendido, à luz da leitura marxista da alienação, como a fractura entre o homem e o fruto do seu trabalho, entre o homem e o seu próximo.

A revolução proposta pelo Slant não era configurava uma alteração das estruturas institucionais internas à Igreja, mas antes uma mudança na própria compreensão do que a Igreja é e para que serve. Como escreviam no seu Manifesto de 1966,(1) a Igreja não existe para os cristãos, nem para si própria. A sua razão de ser é catalisar a transformação da sociedade inteira à imagem da comunhão que celebra na sua vida litúrgica. Uma Igreja que se contenta em reformar-se a si própria, mantendo-se indiferente às estruturas exteriores de desigualdade e exploração, não passa, aos olhos do grupo Slant, de uma instituição idólatra, fechada sobre si mesma, de certo modo traidora da sua vocação.

30/07/26

A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de apresentação de leituras sugeridas, vinculam apenas quem os assina.

___________
(1) Publicado em Portugal em 1968, pela Editora Moraes, na Colecção O Tempo e o Modo, nº 39, sob o título “Os Católicos e a Esquerda - Manifesto Slant”.

bottom of page