Honrar Pai e Mãe também é deixá-los serem livres
Quando se fala dos desafios da velhice, pensa-se quase sempre na solidão, na doença ou na pobreza. São problemas reais e exigem resposta.

Elisa Mendonça, é assistente operacional, dirigente sindical do STFPSSRA, membro da Direção Nacional da Comissão da Igualdade dentre Mulheres e Homens - CGTP e membro do Conselho Regional da USAM - União dos Sindicatos da Madeira.
Mas existe uma realidade muito mais discreta e, talvez por isso, menos denunciada: a de muitos idosos que continuam plenamente capazes, mas deixam de ser tratados como pessoas livres.
Nem toda a violência deixa marcas no corpo. Há uma violência silenciosa que começa quando os filhos, ou outros familiares, passam a decidir pelo idoso sem que exista qualquer incapacidade que o justifique. Decide-se onde vive, como administra o seu dinheiro, quanto tempo dedica aos netos, onde vai ou até com quem convive. Tudo isto, muitas vezes, em nome da proteção.
É verdade que muitos avós cuidam dos netos com alegria e dedicação. Fazem-no por amor. O problema surge quando essa disponibilidade deixa de ser uma escolha para passar a ser uma obrigação implícita. A reforma não é um contrato de prestação de serviços à família. Também não representa o fim dos projetos pessoais, do descanso merecido ou da liberdade de organizar o próprio tempo.
Existe uma ideia, profundamente enraizada, de que envelhecer significa renunciar aos próprios desejos. Como se a idade retirasse à pessoa o direito de decidir. No entanto, enquanto houver lucidez, permanece intacta a dignidade da pessoa e o direito de escolher como quer viver.
É precisamente esta realidade que tantas vezes passa despercebida. Há muitos idosos ativos, autónomos e intelectualmente capazes que, dentro da própria família, vão sendo remetidos para um papel secundário. Não lhes falta companhia, mas falta-lhes, por vezes, o mais importante: serem escutados.
Na mensagem para o IV Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, celebrado no domingo mais próximo da memória de São Joaquim e Santa Ana, avós de Jesus, o Papa Francisco recordou que os idosos são sinal de esperança e uma presença indispensável na vida da Igreja e das famílias. Não são um problema a gerir, mas pessoas cuja experiência continua a enriquecer a comunidade.
Ao longo do seu pontificado, o Papa Francisco fez da defesa dos idosos uma das marcas do seu magistério. Denunciou repetidamente a "cultura do descarte", que leva a sociedade a medir o valor das pessoas pela sua produtividade, relegando os mais velhos para a margem. Pelo contrário, lembrou que os idosos são guardiões da memória, testemunhas da fidelidade de Deus e pontes entre gerações. Uma comunidade que deixa de escutar os seus idosos empobrece espiritualmente, porque perde a memória, a sabedoria e a esperança que só uma vida longa pode transmitir.
Honrar pai e mãe não significa apenas cuidar quando chega a fragilidade. Significa respeitar a sua liberdade e autonomia enquanto ela existe. Significa aceitar que um pai ou uma mãe podem continuar a dizer "não", podem fazer escolhas diferentes das dos filhos e podem querer viver a sua velhice segundo os seus próprios projetos.
Talvez devêssemos perguntar-nos com mais frequência se, em nome da proteção e da boa intenção, não estaremos a retirar aos nossos idosos aquilo que reclamamos para nós próprios todos os dias: o direito de decidir a própria vida. Porque envelhecer não transforma ninguém em propriedade da família. Apenas acrescenta anos à mesma dignidade.
Talvez seja este um dos maiores desafios do nosso tempo: aprender a cuidar sem dominar, acompanhar sem substituir e amar sem retirar liberdade. Afinal, o quarto mandamento não termina quando os nossos pais envelhecem. Pelo contrário, é então que ele nos exige um respeito ainda mais profundo pela dignidade, pela vontade e pela liberdade daqueles que primeiro cuidaram de nós.
17/07/2026
A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de reflexão vinculam apenas quem os assina.
