A Melancolia de Classe De Cynthia Cruz
As férias e as pausas no trabalho permitem-nos coisas muito boas. Nas minhas férias durmo sempre mais horas, tenho tempo para matar saudades, viajar, experimentar coisas novas, arrumar o meu escritório e naturalmente finalizar leituras.

José António Pinto “Chalana” é Técnico Superior de Serviço Social.
Cynthia Cruz é poeta, romancista e escritora. Nasceu numa família pobre, na Alemanha, cresceu no Norte da Califórnia e leccionou em diversas universidades. Actualmente vive em Berlim. No seu livro “A Melancolia de Classe" ela fala do sofrimento de se nascer numa família pobre e pertencer à classe trabalhadora. Estas famílias mesmo a trabalhar vivem na pobreza, não têm direito ao descanso, ao lazer, ao prazer, às férias, estão proibidas de sonhar com uma vida melhor. Vivem na privação, são obrigadas a acumular vários empregos para conseguir o mínimo rendimento de subsistência. O seu sentimento de tristeza, fracasso, marginalização e desesperança caracterizam os seus dias. Para a autora a origem de classe marca muito a nossa vida. O nosso percurso de socialização é construído de acordo com o acesso aos recursos, com as oportunidades que nos foram criadas . O nosso passado, as nossas experiências, a nossa família, a nossa comunidade, influenciam muito os nossos estilos de vida. Quer isto dizer, condiciona o que sentimos, pensamos e fazemos. Como falamos, o que vestimos, a postura do corpo, os nossos gostos estéticos e culturais. A nossa condição social está toda aqui, na origem, nas raízes . O nosso mundo, que sendo o mundo da classe trabalhadora é um mundo à parte. O problema é que se quiseres ser alguém na vida, sonhares com uma vida melhor, escapares à pobreza, fugir da miséria, CYNTHIA escreve que muitos artistas utilizaram uma estratégia. Eu estava à espera da luta de classes, da consciencialização política, da formação ideológica, da organização coletiva, do activismo cultural, Nada disso. Ao longo das 213 páginas vamos encontrar artistas de todo o mundo, principalmente americanos, que para fugir à miséria da classe trabalhadora, emigraram, fugiram do contexto social opressivo e renegaram a sua origem de classe . A luta de explorados contra opressores também é referida, naquilo que a autora chama, luta horizontal e vertical mas o destaque vai para a luta vertical, ou seja, o explorado se puder também se torna explorador, porque quer subir na vida e o marketing da sociedade de consumo e da tecnologia diz que ele pode ter uma vida boa se quiser, só depende dele. A meritocracia diz que já não faz sentido falar em luta de classes, cada um pode safar-se sozinho. Safar-se sozinho significa ter ambição, querer muito dinheiro e poder, renegar o passado para não ficar para trás. Matar o teu eu, esconder-te numa carçaça, fingir, apagar memórias, pessoas, objetos, paisagens, lugares da tua vida. Tornar-te noutra coisa.. Abandonar rapidamente a origem da classe trabalhora, assimilar, interiorizar, adotar, consumir, os valores culturais da classe média. É a classe média que impõe os estilos de vida através das revistas, moda, filmes, música, política. Para não ficares à margem e teres uma vida digna só a classe média te pode salvar.
Ora esta mensagém é preocupante e deixa-me muito angustiado.
PRIMEIRO:- nunca ninguém se salva sozinho. Na história das grandes revoluções que alteram as estruturas económicas e o desenho das políticas públicas, só a força coletiva, consciente e organizada tem produzido resultados positivos para o progresso da humanidade.
SEGUNDO:- associar a classe trabalhadora a uma vida miserável definitiva e inevitável não é verdade. A classe trabalhadora só tem uma vida difícil porque ė explorada. Se forem combatidas as causas dessa exploração, todos podem ter uma vida boa. Ė possível, está ao nosso alcance e é essa luta que deve animar os nossos dias.
TERCEIRO:- Dizer que a classe trabalhadora já não existe, está morta, só simbolicamente viva, é perigoso. Dizer que já não existem trabalhadores mas sim colaboradores, é intelectualmente desonesto. Quem beneficia com esta estratégia sabe que é a luta de classes que provoca revoluções, que implica organização coletiva, que vai à raiz da exploração da venda da força de trabalho, que põe em causa o sistema, que reivindica direitos e não reformas.
QUARTO:- Abandonar o termo luta de classes significa, divisão, abandono, dispersão de unidade. Se essa luta não pertence à minha classe, por que razão eu me hei-de interessar por ela. Eu sou da classe média, não tenho que compreender, ter empatia ou solidariedade com os pobres trabalhadores.
Por fim , a autora para nos consolar desta dureza de argumentos diz que muitos protagonistas do seu livro que renegaram a sua origem de classe , que tentaram esquecer, apagar e anular as vivências da classe trabalhadora estão hoje com mais dinheiro e conforto material mas angustiados com a sua nova vida.Quando o seu mundo interior teve de ser apagado e as suas origens camufladas, o resultado foi depressão, angústia, conflito de identidade por serem uma coisa e tentarem parecer outra. Que este capítulo que a autora chama de assombração na página 157 nos ajude a não desanimar da luta coletiva e a acreditar que podemos mudar a vida, e construir um mundo melhor para todos.
20/10/2026
A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de reflexão vinculam apenas quem os assina.
