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Que seja verdadeiramente Natal

Cheira a Natal! Mais um lugar-comum que, como quase todos os lugares-comuns, tem uma virtude: é verdade.

Que seja verdadeiramente Natal

Silvina Queiroz é eleita da CDU na Assembleia Municipal da Figueira da Foz e membro da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal.

A época vive o afã costumado, com pessoas atarefadas, de um lado para o outro, fazendo as suas compras, visitando amigos. As lojas engalanam-se de enfeites coloridos e luzes mágicas, as varandas vão apresentando iluminações que lembram alegria e aconchego. No ar respira-se o momento, com cheiros característicos aqui e ali: plantas aromáticas, canela e toda a espécie de doces da época.

Dói-me pensar que tudo isto, muitas vezes, demasiadas vezes, “passa ao lado” do verdadeiro sentido do Natal: a vinda entre nós do Deus Menino, Salvador, sacrificado pelos nossos pecados e condutas merecedoras de condenação veemente. É o consumismo desenfreado, o “ter” a manifestar-se como mais importante do que o “ser”. As pessoas apressam-se a garantir que o seu Natal seja farto e maravilhoso.
Mas será para todos? Não! Muitos não vão conseguir uma extravagância, um mimo mais consolador. Os magros subsídios deste tempo já estão com o seu destino decidido – o cumprimento de obrigações anteriormente assumidas e que não deixam margem para muito mais. É terrível a situação em que sobrevivem tantos nossos contemporâneos, sempre vivendo no limiar da dignidade que se impunha.

Daí a convocação, em boa hora, da greve geral, numa tentativa arrojada para alterar o alfa e o ómega de quem dirige, e mal, os nossos destinos e seus apaniguados e simpatizantes. Como?! Como podem considerar fazível e aceitável a quebra de direitos e garantias, o recrudescer da exploração de quem trabalha, a exposição descarada dos mais frágeis ao atropelo, à injustiça, à mais despudorada desprotecção?!

A opressão dos mais fortes, porque o dinheiro assim dita, recai sobre os elos mais fragilizados desta cadeia que é o trabalho e as relações de “poder” entre as partes. Ficar calado, inerte, à espera que a desgraça se abata sobre as cabeças? Não! Jesus não ficou calado e inerte: Ele virou as bancas dos vendilhões que faziam do templo o seu local de lucro desrespeitoso face à santidade do lugar.

É Natal e cresce nas almas o desconforto e a revolta perante a prepotência, o exagerado poderio de uns poucos diante da fragilidade dolorosa de tantos! Estes que agora se rebelam e mostram a sua indignação, o seu descontentamento que grita alto por justiça e humanidade.

Que possa assim ser Natal em todos os corações, que haja conforto e bem-estar em todos os lares. Ah! E que todos tenham lar. Que não haja meninos, como Jesus, a nascer debaixo das estrelas, sofrendo o frio de Dezembro, enquanto os privilegiados deste mundo se refastelam nas suas casas bonitas, aquecidas e confortáveis.

Que seja verdadeiramente Natal! De amor, de aconchego, de solidariedade para com os mais desprotegidos. Que a Terra seja um sítio de fraternidade e compaixão, a maravilha da partilha e do respeito e dignidade de toda a pessoa.

9/12/2025

A equipa assume a gestão editorial de Terra da Fraternidade, mas os textos de reflexão vinculam apenas quem os assina.

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