
Reflexão: Dantas Ferreira
A paz e os poderosos (1)
Dantas Ferreira é advogado.
Existe um conselho para a Paz ou Conselho Mundial da Paz, em inglês World Peace Council que é uma organização internacional criada no contexto da Guerra Fria, com o objectivo declarado de promover a paz mundial, o desarmamento, a cooperação entre os povos, apoiar o desarmamento nuclear e a erradicação de bases militares estrangeiras e apoiar a libertação dos povos coloniais e os movimentos de autodeterminação.
Criado em 1950, em Varsóvia, surge no contexto das tensões entre o bloco socialista e o bloco ocidental, baseado em resoluções do Congresso Mundial dos Partidários da Paz, realizado em 1949.
O Conselho Mundial da Paz não é uma organização de Estados (como a ONU), mas sim de movimentos, associações e comités nacionais da paz de vários países.
O Conselho, ainda, hoje existe com sede em Atenas (Grécia) e inclui organizações de mais de 100 países, embora com influência reduzida.
Durante a Guerra fria o Conselho foi um instrumento de diplomacia cultural e propagandística, serviu para mobilizar a opinião pública europeia contra a instalação de mísseis americanos e as políticas da OTAN. Contribuiu para o debate público sobre o desarmamento nuclear e a segurança internacional.
O Conselho teve papel relevante em apoiar movimentos anticoloniais (Angola, Moçambique, Vietname e Palestina), promoveu conferências e campanhas de solidariedade internacional e contribuiu para a formação de uma consciência global pela paz e contra as armas nucleares.
Foi, no entanto, visto com desconfiança por muitos governos ocidentais que o consideravam uma organização pró-soviética.
Com o fim da Guerra Fria e o colapso da URRS, perdeu poder e financiamento, sendo hoje uma organização de menor influência, mas, ainda, activa em fóruns internacionais.
Foi esta sensibilidade, em geral defendida mundialmente, que nos permitiu, depois da Segunda Guerra Mundial, vivermos um período de paz e equilíbrio geopolítico.
Entretanto, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o Fórum Económico Mundial, em Davos, em Janeiro de 2026, apresentou um plano abrangente para acabar com a guerra na Faixa de Gaza, que incluía um cessar-fogo imediato entre Israel e o Hamas, libertação de todos os reféns, acesso humanitário total à população civil e propostas de governação transitória e reconstrução da região.
Segundo registos este plano é apresentado como um órgão internacional para prevenir e resolver conflitos, globalmente, fora dos mecanismos tradicionais como a ONU, a que chamou Conselho de Paz.
Trump afirmou que o conselho pode actuar em muitos conflitos além de Gaza” e que trabalhará com outros actores, incluindo a ONU”.
O conselho tem um modelo de adesão que inclui uma contribuição financeira proposta de cerca de 1 bilião de dólares para membros permanentes o que tem gerado controvérsia.
Esse plano foi discutido em encontros internacionais e apoiado em parte por países árabes e líderes europeus, embora com críticas de que não resolve as aspirações de soberania dos palestinos e que não impõe condições claras aa Israel e ao Hamas.
Apesar de inúmeras críticas, Trump criou o Conselho de Paz (Board of Peace).
Porém, até ao momento, não existe oficialmente um “ Conselho de Paz” formalmente criado por Donald Trump com estrutura institucional reconhecida internacionalmente, como um organismo equivalente à ONU ou à NATO.
O que existe são propostas e discursos políticos feitos por Trump- especialmente durante a sua presidência (2017-2021) - e em campanhas posteriores, defendendo:
+ Negociações directas para encerrar guerras (Rússia-Ucrânia)
+ Redução do envolvimento militar dos EUA no exterior
+ Pressão para que os aliados da OTAN aumentem seus gastos com defesa
+ Reformulação ou enfraquecimento de organismos multilaterais tradicionais.
A ideia que partiu de Trump surge porque entende que poderia negociar rapidamente o fim da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, que a política externa dos EUA deve priorizar interesses nacionais, que as organizações multilaterais, como a ONU, são ineficientes ou desfavoráveis aos EUA e que a OTAN deveria ser reformulada financeiramente.
Ora esta ideia do Presidente dos EUA visa, fundamentalmente, submeter os interesses dos aliados ao seu “ dictame” e torná-los mais dependentes, mais, domesticáveis, recorrendo ao armamento que EUA vendem.
18.03.2026
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